quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Contatos formam pessoas

Há uns dois anos, eu e uma amiga de trabalho ficávamos sentadas nas muretas do jardim que havia na frente de um banco. Passávamos um tempo, minutos antes de voltar ao trabalho, às vezes estudando outras lamentando o mundo: trabalho, família e a inerente falta de dinheiro.

De repente um pedinte se aproxima:
- Calma! Não sou bandido, disse o cara todo sujo, cabelos e barbas bem grandinhos, vestido de camiseta, calça e chinelos.
Num ato de reflexo, as duas seguram as bolsas e tentam se levantar. E ele continua:
- Eu vi que vocês estão de cabeça baixa. Estão chateadas? Posso fazer uma brincadeira... piada com vocês?
- Como assim? As duas perguntam quase de pé.
- Eu vou fazer uma charada.

Sentamos. Não nos pareceu perigoso. E assim foram piadas, risos e insistentes apertos de mãos. Talvez porque Luiz, esse simpático morador de rua, estava extasiado por conversar com alguém que lembrasse o passado que deixou.

Antes de sair para as ruas, Luiz era encarregado de uma empresa. Fazia charadas que envolviam lógica, matemática, pegadinhas de português. Era casado, pai de dois filhos e morador de um sobrado na periferia de São Paulo.

Sim! Não é à toa quando dizem que uma mulher pode ser o sucesso ou a desgraça de um homem. Um dia, ao voltar para casa, ele encontra sua esposa e seu irmão numa situação onde ele deveria estar. Juntos na cama.

De tão louco, o cara resolveu sair de casa e cair no mundo. Pensou em matar os dois, mas logo em seguida disse que ia morrer na prisão. Preferiu a rua. Enquanto o irmão foi morar com a ex-cunhada. Quanto aos filhos, nunca entendi se ele os vê ou não.

Em quase 20 minutos de conversa com esse “anjo” chamado Luiz, nós duas levamos uma série de lições sobre a vida e muuuuuuuuitos apertos de mão. Sua presença, marcante pela “frangrância” que deixou na gente, permaneceu até chegarmos em casa e entrar no esperado banho. Mas a sua história não sai tão fácil.

(Fabiana Cassim)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Teremos vez no Oscar?

Na quarta-feira passada foi anunciado que o longa-metragem O Ano em que meus Pais Saíram de Férias é o candidato do Brasil a uma indicação na categoria de filme estrangeiro no Oscar. O filme – segundo da carreira do diretor Cao Hamburger, que já fez Castelo Rá-Tim-Bum, o Filme – conta através do futebol, a vida de um menino, que muda drasticamente quando seus pais saem de férias e o deixam com o avô paterno.

Uma fábula que prima pela delicadeza, o filme tem como cenário o bairro do Bom Retiro, em São Paulo, e mescla com muito bom humor e suspense, o clima de euforia pela ótima campanha da seleção brasileira na Copa do Mundo de futebol – em 1970 quando conquistou o tri-campeonato – com a repressão decorrida da ditadura.
Acho que O Ano em que meus Pais Saíram de Férias tem boas chances na corrida de melhor filme estrangeiro. Apesar da ditadura já ser um tema meio batido no cinema nacional, Cao Hamburger foca um olhar particular e extremamente sensível sobre os acontecimentos políticos que o país atravessava.

Eu, que só fui ver o Brasil ganhar Copa do Mundo em 1994, fiquei fascinado de como o filme descreve a euforia da população durante os jogos, que naquela época era de 90 milhões. Estou confiante na indicação do longa e acho que merece estar entre os cinco finalistas. Ingredientes para tal façanha temos, afinal, a história, triste, que ganha leveza, graciosidade e tons de comédia por ser contada por meio da visão de uma criança, sem nunca perder essa inocência do olhar infantil é prato cheio para os votantes da academia.

Agora é só torcer! Para quem ainda não viu, o filme deve voltar aos cinemas ainda este ano, mas também pode ser encontrado em DVD.

(Frederico Paula)

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Purgatório virtual

Com o sucesso dos sites de relacionamentos, onde as pessoas expõem suas intimidades, conversas e preferências, ter uma página no Orkut é uma maneira de estar conectado com o mundo ou uma forma de existir. Pensando nisso uma dúvida me bateu na cabeça. E se, de uma hora para outra você não estiver mais aqui pra administrar o seu profile? O que acontece com sua página de Orkut depois que você canta pra subir? Se alguém morre e ninguém tem a senha, o perfil dessa pessoa fica lá como se nada tivesse acontecido. Sua página fica vagando com sua foto sorrindo para sempre no seu álbum de retratos.

O curioso é que existem comunidades dedicadas a administrar perfis de quem já passou desta para a melhor. A mais importante e conhecida delas é a PGM -Profiles de Gente Morta com 2.784 associados, até a última vez que entrei. Funciona assim: os membros ficam sabendo da morte de alguém, investigam para saber se a pessoa faz parte do Orkut e colocam um link para o profile da pessoa. Sua vida não é apenas uma página aberta como também sua morte. E a comoção toma conta de todos os freqüentadores que deixam recados, mensagens de incentivo para a família e analisam as causas da morte.

Alguns amigos deixam recado direto para a pessoa como se o morto pudesse ler. Quem sabe?! E porque deixam recados? Seria uma forma de manter a lembrança, uma maneira de prestar homenagem ao amigo querido ou a curiosidade que a morte sempre atrai? Em principio parece uma forma de desabafar, aliviar a saudade, sentir conforto ou prestar homenagens. Até que, com o passar do tempo, os recados vão ficando escassos e os spams, esse lixo virtual, enterram as mensagens de dor e saudades. Por isso, acho bom você começar a pensar em quem confiar não só a senha do banco ou o segredo do cofre, mas também o seu login e senha do Orkut, para quando você abotoar o paletó de madeira alguém deletar o seu perfil.

Você pode evitar que aquele seu amigo de infância encontre sua página e deixe lá um recadinho “E aí fulano, quanto tempo? Como vai a vida?” ou aquele mais desavisado “Pô! Tô com saudades! Apareça!!!” Que Medo! Outra coisa me faz pensar: vai que existe alguma maldição da internet que deixe você preso, vagando por entre comunidades como “Tenho medo da Gina dos palitos”, “Eu odeio dormir com os pés gelados” ou “Só morro depois do fim de Lost”. É algo como um inferno virtual. Por isso, por mais que você não queira pensar no assunto comece a analisar em quem vai confiar sua senha do Orkut.
(Adriana Balsanelli)

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Quem sabe faz muito bem ao vivo

Tem certas bandas e/ou cantores que simpatizo e ficam naquela categoria "gosto de ouvir, mas não sei se vou comprar o CD". Pato Fu era assim. Até que fui a um show e, então, não consegui mais parar de ouvir. Desde então, sempre que tenho a oportunidade, vou ao show da banda, que, além de diversão, me trouxe dois amigos muito queridos - um deles, o Caio, é o autor da foto abaixo.

É incrível vê-los no palco. Não sei bem o que acontece, mas fico encatada com as músicas, a luz, o cenário, com eles tocando seus instrumentos e até com as danças desengonçadas da Fernanda Takai e do Ricardo Koctus. O Pato Fu conhece o verdadeiro significado da palavra espetáculo.

Saio do show gostando mais ainda das músicas que já gostava e canto até as que não me empolgavam muito. Com os dois últimos CDs da banda foi assim: só me empolguei e comecei a escutar mais depois que fui no show.

Eu recomendo o show do Pato Fu para os que nunca viram a banda ao vivo. Quem quiser tentar, neste final de semana, dia 30, às 12h30, eles se juntam ao Trash Pour 4 em uma apresentação no Shopping Anália Franco. Nos vemos lá!

(Vanessa Fontes)

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Hagar, Pink Panther e Os Três Patetas

Recebi a notícia mais triste da minha vida em setembro de 2002, no dia 8, a 10 dias de seu aniversário. Era uma tarde cinzenta e chuvosa, domingo fatídico aquele. Na UTI do Hospital Oswaldo Cruz, eu e meus irmãos abraçados, a dor na alma e na carne, como se alguém tivesse arrancado nossos corações pela garganta, nos sufocando. Durante muitos anos lutei para apagar da memória essas imagens, visíveis mesmo de olhos bem fechados.

Depois de cinco anos, hoje lido melhor com recordações e não passa um dia sequer sem que me lembre dele. O sorriso doce, os olhos meigos, o jeito brincalhão, sempre pronto para fazer uma graça, soltar uma piadinha. Daí tomei coragem e resolvi escrever este texto para me lembrar cada vez mais, me certificar de que jamais esquecerei sua voz, mesmo que não a tenha gravada na caixa postal do meu celular, como várias vezes pensei em fazer com as mensagens deixadas por ele.

Engenheiro, sublimou o talento para o desenho mas não perdeu a sensibilidade. Lia o jornal toda manhã, sem perder as tirinhas de Hagar, o Horrível, o adorável viking do cartunista Dick Browne. Lembro dele deitado depois do almoço, na sala de som, escutando música, de preferência um Paulinho da Viola, Clara Nunes, porque o cara tinha bom gosto musical. Ou tomando um uisquinho para relaxar depois do trabalho, passeando com o cachorro que ele me deu - mas que escolheu ele como dono. Lembro dele com cara de gaiato, sempre tentando uma pegadinha, dando gargalhadas com O Gordo e o Magro, com o humor ingênuo do trio mais biruta da TV, Os Três Patetas, e com o desenho animado Pink Panther, a pantera magra e desengonçada, apelido depois dado por mim e pelo Beto ao nosso irmão do meio.

Companheiro da minha mãe por mais de 50 anos, com ele, aprendi a ser mais paciente, menos intransigente. De herança, ele também deixou a força para vencer os vários desafios: a perna quebrada em acidente quando ainda era garoto, a internação em Campos do Jordão para tratar a tuberculose adquirida na fábrica de lâmpadas onde trabalhava, o câncer de próstata, a osteoporose na coluna... O cara era forte como uma rocha, o são-paulino que escutava futebol pela Jovem Pan e acordava a casa toda pela manhã com a famosa vinheta da rádio “vambora, vambora, tá na hora, tá na hora...” Deu duro a vida inteira e quando se aposentou abriu um negócio. Quando não deu mais, foi administrar a Arteplural. E eu, influenciada por seu espírito moderno, entre o Jornalismo e o Direito, escolhi o primeiro. Por isso, dedico a ele cada dia de trabalho com bom humor e brindo vida longa à Arteplural.

É muita história pra colecionar. O passeio de ônibus por Copacabana quando moramos no Rio, os pacotes de biscoitos devorados logo depois do jantar. A emoção da primeira vez que o homem pisou na Lua, a farra com a vitória da seleção da Copa de 70 pelas ruas do bairro, ele dirigindo nosso primeiro Fusca. Os tanques de Guerra na porta de casa, em frente ao quartel da Manoel da Nóbrega em 64, a estranheza ao ver fotos de amigos da família procurados como “subversivos” em cartazes na padaria. O governo militar e a inocência de meus irmãos marchando como os soldados.



E hoje, ele dando cambalhotas no sonho do Flávio ou atendendo o telefone na casa da minha mãe, desta vez no meu sonho, e dizendo para eu não me preocupar que ele estava cuidando direitinho dela. O orgulho de ter o mesmo nome, ter nascido no dia 18. Meu pai era uma figura e eu aproveitei bastante o tempo que pude ao seu lado, tenho certeza.

(Fernanda Teixeira)

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Na carona do Dudu - Prefiro os gatos

Nunca gostei de gatos. Sempre achei os felinos pouco interessantes, até mesmo pouco inteligentes se comparados aos cães. Acreditava que entre os gatos e as galinhas não havia muita diferença, ambos eram para mim animais inferiores. Seria capaz de enumerar toda uma fauna com capacidade de ser superior a de um gato.

Já o cachorro era o “melhor amigo do homem”, “o rei das selvas”, ou melhor da humanidade. Este sim, o único fiel e companheiro amigo de todas as horas, sempre ali, disponível, pronto para dar o melhor de si: abanar o rabo requebrando metade de seu corpo para expressar a felicidade e alegria apenas por ter a companhia humana. A imagem do cão de Ligia - aquele que numa esquina, morto de frio, espera seu dono que um dia partiu para guerra e nunca mais fez o caminho de volta pra casa - era perfeita, neste meu universo

Quanto ao gato, este para mim, não compreendia o ser humano, não havia nenhuma possibilidade de aproximação. Não entendia porque algumas amigas gostavam tanto dos gatos. Achava mesmo suspeita tal preferência. E duvidava daqueles jovens que chamavam um ao outro de “meu gato”, “minha gata”. Pensava que a referência ao felino era pela sua aparência sensual e traiçoeira... Ops! Só agora percebo que, na verdade, já tinha, sim, algumas adjetivações para os gatos. E talvez por essas, não estivesse disponível para eles, meu olhar era de reprovação àquele seu mundo perverso.

Recusei durante muito tempo estes felinos, mas hoje penso seriamente em adotar um. Conviver diariamente com um gato. A minha mudança, após tantos anos negando esta estranha atração, vem de um engano cometido no passado, não com o gato, mas com a humanidade. O gato era humano demais, e desta humanidade trazida pelo gato eu não sabia. O gato é um estrategista, um jogador de xadrez, um estadista quando se trata de seus domínios. O seu andar é manso, os seus movimentos sutis, sua respiração imperceptível e seu olhar sempre duvidoso.

O gato para ser entendido e amado tem que ser, se faz ser observado. Demarca seu território, define sua moradia, escolhe sua comida e o melhor lugar para dormir. O dono do gato? Ora, deve estar em algum lugar da casa (que lhe restou) lendo um jornal, disponível para atender a sedução insustentável de seu gato. O animal é mesmo especial, não é para qualquer um, em qualquer momento. É o gato quem define o tempo de sua companhia. Há um ritual para que sejamos aprovados e finalmente convivermos com eles. Mais ainda: poderemos ter surpresas com esta relação. Para estar com um gato nada devemos esperar, afinal um gato é quase humano. Hoje prefiro os gatos. Não aos cachorros, afinal os cães têm seu status assegurado muito antes da minha opinião - fico com os gatos aos humanos quase gatos.


(Tânia Garcia)

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

"Ela tá em tudo quanto é canto"

Se os créditos do filme sobem e me vem a sensação de nunca mais querer vê-lo, pode ter certeza de que ali a arte foi bem representada. Caso contrário, nem dou chance de chegar aos créditos. Para mim, filme bom é aquele que vai lá no fundo mexer com nossos sentimentos e angústias, provocando reflexões e mudanças de comportamento. Em alguns casos, revê-lo pode remexer nessas sensações e causar desconforto.

Assim foi quando assisti a uma obra muito recomendada por colegas de diversos setores da sociedade, como psicólogos, educadores, ambientalistas, filósofos, jornalistas etc. Estou falando de Estamira, um documentário dirigido por Marcos Prado, que conta a história de uma mulher de 63 anos que sofre de distúrbios mentais.

Essa mulher, que vive e trabalha há mais de 20 anos no Aterro Sanitário do Jardim Gramacho - local que recebe diariamente mais de 8 mil toneladas de lixo produzido no Rio de Janeiro -, é dona de um discurso tão profundo e poético que chega a ser um tapa na cara de todos nós, considerados sadios. Por meio de sua história, Estamira levanta questões de interesse global, como o destino do lixo, o desamparo humano, social, econômico e político. "Isso aqui é um depósito de restos. Às vezes é só resto e às vezes vem também descuido. Resto e descuido", afirma a protagonista em referência ao Jardim Gramacho.

Nada escapa aos seus olhos atentos. Na sua "lucidez", Estamira nos propõe uma reflexão sobre a medicina, a educação, a religião e o comportamento humano. "Não existem mais inocentes, mas sim espertos ao contrário", diz.

Para definir o seu distúrbio mental e o atendimento que recebe por meio do serviço público de saúde, ela é enfática: "Eles estão dopando quem quer que seja com um só remédio" Estamira é sábia e tem plena consciência de que seus problemas mal são ouvidos. "Eles só copiam... eu vou lá todo dia, todo mês, cada consulta é o mesmo remédio... Esses remédios são da quadrilha da armação, dos dopantes".

Fica aqui a dica de um filme que faz jus à sétima arte, por emocionar e modificar o ser que a contempla. E a certeza de que todos nós temos um pouco de Estamira.

"Deficiência mental eu acho que quem tem é imprestável, né. Bem, pertubação também, mas não é deficiência, né. Pertubação é pertubação. Por que não pode ser pertubado?"

"Isso até meu neto sabe. Ele nem foi na escola copiar o que aqueles hipócritas manda"

"Eu, Estamira, sou a visão de cada um"

(Fabiana Cassim)