sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Grande Estreia!!!

Por Maria Lúcia Candeias
Doutora em teatro pela USP
Livre Docente pela Unicamp

Será que “Usufruto” é mesmo a primeira peça que Lúcia Veríssimo escreveu? Fui até olhar se ela é filha dos Veríssimos do Rio Grande do Sul (Érico ou Luiz Fernando) mas não, ela nasceu no Rio de Janeiro (pai paraibano). Sua competência como dramaturga estreante provavelmente se alicerça na sua enorme experiência como atriz de teatro, cinema e TV.

É surpreendente! Tudo se passa no interior de um apartamento ainda acabando de ser construído e que já tem dois compradores interessados: uma mulher (a própria autora) e um homem em vias de casar-se (Raphael Viana). Além do conflito imobiliário, passam a discutir posturas de vida e experiências amorosas, num papo de uma atualidade não muito comum em nossos palcos. É imperdível.

É claro que não é só o texto que agrada muito, pois a atuação dos dois é impecável, assim como a como sempre ótima direção de José Possi Neto. Também, ele é o campeão das montagens na FAAP. Basta lembrar a inesquecível “Salomé” de Oscar Wilde que não obteve nem o sucesso nem todos os prêmios que merecia, visto que foi apresentada com o chão do palco coberto de água. Caso único e muito adequado à bela leitura cênica. Isso, entre outros inúmeros acertos da brilhante carreira, como nesse “Usufruto”.

Desta vez, o cenário de Jean-Pierre Tortil é discreto, muito funcional e, como sempre, de extremo bom gosto. Os figurinos não ficam atrás e são assinados por Rebecca Beolchi. Além disso, basta dizer que a trilha sonora é da Túnica Teixeira. Quem melhor do que ela em teatro que não é musical?

Em resumo, a estréia de Lúcia é iluminada – não só pela iluminação – pelo talento do Possi e ninguém deve perder. É um arraso.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Nunca antes na história desse País

Depois de viajar mais que seu antecessor, desde que assumiu o cargo, fazendo propaganda de sua imagem no Exterior, o presidente do Brasil continua preocupado ao extremo com marketing pessoal e agora resolveu doar R$ 30 milhões (ou será R$ 1 bilhão?) para ajudar a reconstruir o Haiti. Tudo porque quer porque quer ter uma cadeira na ONU.

Será o benedito? E o Jardim Romano aqui em São Paulo, que vive sob as águas desde que o Verão começou, cara pálida? E São Luis do Paraitinga? E Cunha, Guararema e todas as cidades do interior de São Paulo e do País? E todos aqueles que continuam perdendo seus entes queridos em desabamentos pelo Brasil afora, em bairros e cidades? Será que não dava para fazer alguma coisa com tanto dinheiro e tirar os pobres das ruas? O bolsa-família é esmola. E receber esmola não educa ninguém. Precisamos de um plano para acabar com a miséria aqui no Brasil. Tudo bem, dá para contribuir com a força de paz no Haiti, mas essa fortuna não está sobrando por aqui, pelo que sabemos.

A esquerda não está no poder no Brasil. A situação há muito deixou de ser de esquerda. Não é de esquerda, nem direita. Está no meio do caminho, no centro mesmo. Por falar nisso, cabe aqui reproduzir, com a devida citação da fonte, evidentemente, artigo de Ferreira Gullar, publicado na edição de domingo passado, dia 25 de janeiro, no jornal Folha de S. Paulo. Ele é mais uma prova de que o presidente não comunga com a esquerda há tempos.

De esquerda era o poeta maranhense que escreveu o artigo abaixo. Presidente do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), foi filiado ao Partido Comunista na época do golpe militar de 1964. Fundador do Grupo Opinião, ao lado de Oduvaldo Vianna Filho, foi preso quando o AI 5 foi promulgado. Nesses dias, sim, existia direita e esquerda, burguesia e proletariado. Hoje não tem mais direita, esquerda. As ideologias ficaram no passado. Ou alguém ainda tem a ingenuidade de acreditar no contrário?

(Fernanda Teixeira)
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Uns mentem, outros deliram

Por Ferreira Gullar

Lula está convencido do papel que a História
lhe teria destinado; parece personagem de Gogol

"Seria simplificação excessiva dividir os políticos em duas categorias distintas: a dos honestos, sinceros, imbuídos de espírito público, e a dos desonestos, mentirosos e voltados apenas para seus próprios interesses: enfim, anjos de um lado e demônios, do outro. Sabemos que não é assim, e alguns escândalos ocorridos há pouco, no Congresso e fora dele, deixaram isso bem claro. Daí sermos levados a considerar que, queiramos ou não, o mundo político tem características peculiares que, se não nos devem levar a abrir mão das exigências éticas no comportamento de qualquer cidadão, ensinam-nos a admitir uma margem de tolerância que permita ao transviado arrepender-se e corrigir-se, mesmo porque todos nós estamos sujeitos, vez por outra, a pisar na bola.

É certo que há erros e erros e, como se sabe, se errar é humano, persistir no erro é indesculpável. E, infelizmente, em nosso universo político, há muitos que não apenas erram e persistem, como abusam da tolerância alheia.Os valores éticos não podem ser relativizados, é claro, mas o desvio será tanto mais grave quanto mais importante for o lugar que ocupe o infrator no âmbito da sociedade. Por exemplo, o suborno é inaceitável, seja praticado por quem for, mas será certamente mais grave se quem o praticar for o governador do Distrito Federal ou um senador da República. Não será menos grave se tratar de um ministro de Estado e, mais grave ainda, se for o presidente da República. Este, então, por sua condição de chefe de Estado, está obrigado a seguir com rigor e transparência todas as normas éticas e constitucionais.

Pois bem, mentir não é pecado apenas perante Deus, mas igualmente perante os cidadãos. Há um tipo de político para quem isso não tem importância, desde que contribua para manter seu prestígio ou a governabilidade. Há mesmo aqueles que garantem serem mentirosas as acusações verdadeiras que lhes são feitas, atribuindo-as aos adversários políticos ou à imprensa. Eles têm consciência de que a maioria da opinião pública sabe que mentem, mas estão se lixando para ela, já que os seus currais eleitorais só acreditam no que eles dizem e sempre votarão neles. O resultado é que importa, o pragmatismo está acima da ética.E não é isso que fazem tantos políticos e, entre eles, Lula e seu partido?

Todo mundo sabe que eles se opuseram ferozmente à política econômica do governo anterior, chegando Lula a afirmar que o Plano Real era um golpe eleitoral que não duraria seis meses; que a Lei de Responsabilidade Fiscal era uma farsa e o Proer, um pretexto para dar dinheiro a banqueiros. No entanto, desde o primeiro dia de seu governo, Lula aplica essas medidas que combateu, sem jamais dizer que as herdou do governo passado. Pelo contrário, sua turma afirma que FHC lhes deixou uma herança maldita, quando, na verdade, a inflação de 2002 foi provocada pela possível vitória de Lula, que assustava os investidores. E, como se não bastasse, não hesitam em dizer que a oposição não tem programa de governo, sabendo que se apropriaram dele, uma vez que ostentam, como seu, o programa que era do governo anterior.

Deve-se reconhecer que ter seguido a política econômica que dera certo foi uma decisão correta do governo Lula, mas como admitir que governa apoiado nas medidas que, se dependesse dele e seu partido, jamais teriam sido adotadas? Não o admite porque seria aceitar que deve grande parte de seu êxito ao adversário, o que desarmaria a tese segundo a qual ele, Lula, não é apenas mais um presidente que o povo elegeu, e, sim, o único, até hoje eleito, que efetivamente o representa.

Essa convicção não se baseia em argumentos lógicos e, sim, numa visão mistificada, segundo a qual, depois de séculos, um filho do povo, nascido na pobreza, derrotou os ricos e tomou-lhes o poder. Por essa razão, o próprio Lula considera-se um predestinado. Não por acaso, em seus discursos, ele sempre afirma: "Nunca antes na história deste país...". E quer anular tanto o TCU quanto a imprensa, já que um predestinado não pode ser nem fiscalizado nem criticado.Por isso mesmo, não diria que ele é um mentiroso nem um farsante, já que está convencido do papel que a História lhe teria destinado. Lembra-me aquele personagem de Gogol que, chegando à província, foi tomado equivocadamente como o inspetor geral a serviço do czar e passou então a agir como tal, certo de que era o que não era. Lula, como aquele personagem, pode acordar dessa ilusão, em 2010, quando o verdadeiro inspetor chegar à cidade. Ou não."

Nada pode ser pior que estar soterrado

Por Douglas Picchetti

Eu sempre peço para, depois de morto, ser cremado ou jogado no mar. Minha família e meus amigos já sabem - quem não souber, fique sabendo agora. Um dos maiores medos da minha vida é acordar vivo num caixão. Deus me livre, já imaginaram? Sem água, sem comida, sem poder me mexer, e o pior de tudo: sem sono, para poder dormir por horas e horas. Seria impossível se levantar, virar de lado ou deitar de bruços.

É exatamente nesse pesadelo que estão vivendo milhares de haitianos agora. Ainda existem corpos soterrados pelos escombros e todos os dias alguém é resgatado com vida, ou pelo menos consciente. Trauma eterno. O pior de tudo, além da dor insuportável, é não saber o que aconteceu. Imaginem só: você estava fazendo compras, andando pela rua, levando seu cão para passear e, de repente, BUM: acorda soterrado, com outra visão, em outro universo e sem ninguém pra te contar nada. A hipótese de que aconteceu um terremoto gravíssimo, que abalou as estruturas do mundo inteiro – inclusive as emocionais – e que exista uma equipe à procura de desaparecidos até hoje, dezessete dias após o desastre, nem deve passar pela cabeça da vítima.

Eu não costumo me abalar com tragédias, mas essa me agonizou, principalmente pelo meu medo de ser enterrado vivo. Nessas condições, eu certamente prenderia a respiração e pronto! Acabaria logo com a tortura.Agora, se mesmo sabendo do meu medo, quiserem teimar e me enterrar, não poderei me defender. Mas, por favor: coloquem uma campainha no meu caixão ou me enterrem numa super casinha, cheia de comidas, água e um depósito bonitinho para fazer as necessidades. Se não eu ficarei muito, mas muito chateado.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Urban Manners 2 - Artistas Contemporâneos da Índia - Exposição no Sesc Pompeia


O repórter Cunha Jr, do programa Metrópolis, da TV Cultura, entrevistou alguns dos artistas da exposição, como a dupla Tukral & Tagra (acima), que falou perto de seu obra, Now in Your Neighborhood (2008), uma escultura gigante de um dinossauro cor-de-rosa feito de garrafas plásticas. O dinossauro incorpora a estética conscientemente lúdica da dupla de artistas, ao mesmo tempo em que aborda assuntos reais sobre desperdício e excesso de produção.
Abaixo, a fotógrafa Anne (abaixo), mulher do famoso fotógrafo indiano falecido em 1999, Raghubir Singh, cuja obra é uma série de fotos surpreendentes. O artista elaborou surpreendentes imagens nas quais as cores parecem incorporar a forma que oferece a beleza total de seu país. Seu uso altamente sensível de cor e de estruturas complexas de imagens, estende uma ponte entre as tradições pictóricas ocidentais e indianas, ainda assim permanecendo unicamente indiana.
As fotos, feitas pelo celular, são de Adriana Balsanelli.





Duas que vale conferir


Por Maria Lúcia Candeias
Doutora em teatro pela USP
Livre Docente pela Unicamp

A Cia de Teatro Encena vinha apresentando sempre montagens com textos experimentais, colocando o ponto de vista dos jovens de agora em contraposição à visão dos atuais coroas. Desta vez mudou de foco encenando ninguém menos que Jorge de Andrade, autor paulista, que, em “Os Ossos do Barão”, analisa os efeitos da crise de 29, que empobreceu os donos de fazenda e de cujos efeitos foi possível se salvar graças ao café e à imigração italiana.

Dois interesses a princípio antagônicos, mas que acabam se compondo como é hábito em nosso país pouco afeito a guerras, apesar de ter participado de algumas e criado revoluções mais ou menos localizadas. Talvez esse seja o foco que o grupo defende e enfatiza, pois é com o qual conta com a empatia da platéia. Há interesse do público do começo ao fim, inclusive rindo nas partes cômicas.

Pessoas acostumadas a assistir famílias de alta estirpe em cena, provavelmente estranharão a simplicidade de cenário (Jorge Jacques) e figurinos (Walter Lins), os quais muitas vezes parecem mais próximos do experimentalismo que até hoje caracterizou o grupo. São detalhes que não impedem a apreciação da obra, mas podem chamar a atenção de espectadores muito exigentes.

O elenco, composto por dez atores, não é inteiramente regular, mas dá conta do recado, especialmente na primeira parte, tendo como destaque Orias Elias - que também assina a direção do espetáculo - no papel do fazendeiro. Uma peça bastante otimista em contraste com tantas pessimistas, a maior parte das quais vindas de fora. Além do que trás para a cena uma das obras primas da dramaturgia paulista. Vale conferir.

Na corrente oposta está Roberto Lage que reestreou “Teatro Para Pássaros” no Teatro Sérgio Cardoso, desta vez fazendo montagem experimental. O texto é de Daniel Veronese, um dos argentinos mais premiados em seu país, já conhecido nas Américas e que nunca tinha sido montado por aqui.

É um espetáculo extremamente instigante: a primeira impressão é de que se trata de uma peça do absurdo, mas com uma característica nova, apresentando o absurdo que sempre se caracterizou pela falência da razão nas relações afetivas. A segunda impressão é a de que é de um autor que considera a juventude absurda. A terceira é a de que se trata de uma crítica à juventude brasileira, pois o país é muitas vezes citado nominalmente. Será?

Vale assistir porque mexe com a gente e o elenco (Ana Fuser, Bete Correia, Daniel Gaggini, Flávia Tonalesi , Luciana Rossi e Mário Condor) é maravilhoso, a direção com ritmo impecável de Lage, assim como ótimos cenário (Rodrigo Paz) e figurinos (Ed Mendes e Luiz Parisi).

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Antunes Virou Dramaturgo


Por Maria Lúcia Candeias
Doutora em teatro pela USP
Livre Docente pela Unicamp

Mais que premiado e consagrado encenador brasileiro, Antunes Filho estreou na dramaturgia com a peça “Lamartine Babo” e se saiu muito bem. Não foi pesquisar minuciosamente a vida do grande compositor popular (1908/1963) de sucessos eternos como “Eu Sonhei que Tu Estavas Tão Linda”, “O Teu Cabelo Não Nega”, “Linda Morena”.

Isso entre inúmeras outras, inclusive em parceria com campeões como Noel Rosa (“Último Desejo”), bem como com os campeões de futebol, principalmente do Rio, para os quais escreveu hinos como “uma vez flamengo, flamengo até morrer”. Compôs também para um time gaúcho, entre outros. Mas é como sambista e mestre das marchinhas que está enfocado no ótimo texto curto.

Como não poderia deixar de ser, trata-se de um excelente musical com a maior parte do elenco se apresentando em coro e cantando lindamente sob direção de Fernanda Maia. E não é à toa, pois foi ela, juntamente com Zé Henrique da Paula, quem primeiro transformou “Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues, em teatro musicado. É imperdível. Mesmo sem a direção de Antunes que confiou a tarefa a Emerson Danesi, que deu bem conta do recado. Coisas do CPT (Centro de Pesquisas Teatrais do Sesc Consolação) ,que tem formado bons profissionais.

Vale destacar que todos esses acertos se devem, sem dúvidas, à impecável interpretação do elenco que traz nos papéis centrais Sad Medeiros, Adriano Bolsch e, especialmente, Marcos de Andrade, que faz um Silverinha (ou seria um Lamartine?) com perfeição. Aliás, Marcos de Andrade também está arrasando em “A Falecida Vapt Vupt”, onde aparece com outros ótimos parceiros Geraldo Mário e Lee Taylor. Eles dão vida aos papéis centrais da peça de Nelson Rodrigues que, dirigida por Antunes, se passa num bar, com texto bem curto como indica o nome da montagem.

São duas reestréias imperdíveis: A Falecida nos finais de semana e Lamartine –que indico com mais entusiasmo - às quintas-feiras.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Convencional Imperdível


Neil Simon é o autor mais bem sucedido da Broadway. É claro que quem só gosta dos experimentais, off e off off Broadway, não o valoriza tanto assim e até chama suas peças de teatrão.

Mesmo nesse caso, talvez não devesse deixar de ir ao teatro Folha para assistir “Estranho Casal”, ainda que já tenha visto no cinema ou no teatro. A direção de Celso Nunes é perfeita e não é à toa. Afinal o grupo do Celso, o “Pessoal do Vitor”, ficou famoso nos anos 70, pois foi dos primeiros a montar texto surrealista. Esteve na vanguarda dos anos 70 e hoje, como todos nós com o tempo, ficou mais convencional, quando as inovações são incorporadas por todos. Além da brilhante carreira de encenador, foi quem fundou o Departamento de Artes Cênicas da Unicamp.

A montagem conta ainda com o apoio da cenografia de José Dias um dos melhores do país, assim como o iluminador Paulo César Medeiros e conta com ótimos dos figurinos de Ney Madeira. Seu trunfo maior, são os maravilhosos atores entre os quais destacam-se Carmo Dalla Vecchia, Edison Fieschi, e Marcelo Várzea. O objetivo é mostrar ao espectador que não importa a sexualidade dos envolvidos, nem o tipo de relacionamento, seja amizade, família ou casamento, morar junto é muito difícil. Se você precisa ver para crer não perca, se concorda com as teses vá para se divertir muito.

Por Maria Lúcia Candeias
Doutora em teatro pela USP
Livre Docente pela Unicamp