sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Da série Meus Homens e Minhas Mulheres - Irmãos


Um é magro e bem alto. O mais baixo não é magro nem gordo. Tipos diferentes, com dois anos de diferença de idade. Quando crianças, o mais velho tinha o apelido de Pink Panther. O mais moço, a irmã às vezes chamava de Batatinha (também por conta de um desenho animado, A Turma do Manda-Chuva). Os dois gostavam de Perdidos no Espaço, enquanto a irmã preferia O Sítio do Picapau Amarelo. Músculos no lugar certo, um deles gostava de nadar e fazer esportes. Mais chegado em livros, o segundo sempre foi mais tímido.

Um puxou o pai, piadista. O outro a mãe, bem distraído. Chegava a cumprimentar as pessoas com um tchau, acredite você, e nunca saía sem dizer "obrigado" à mãe – sem ter motivo para agradecer, a não ser pelo fato de ter vindo ao mundo. Maria Eduarda era para ser o nome de um, se nascesse mulher, é óbvio. Joãozinho era como a irmã queria que se chamasse o outro.

Sensível, o olhar assustado, ele não sabia o que fazer quando a irmã mais velha dizia que iria embora, e saía pelo portão rua afora, virando a esquina. Pura maldade de criança. Os dois eram levados, se penduravam nos puxadores da cortina, saltavam em vôo rasante de Tarzan pela sala, na frente das visitas, para vergonha da mãe. Terríveis, aproveitaram bem a infância.

Habilidosos (não foi à toa que ambos se formaram engenheiros), construíram uma casinha em cima da árvore em frente à casa em que moravam com os pais e a irmã. Era um sobe e desce danado da turma toda. A brincadeira na rua rolava solta. Carrinho de rolimã, bicicleta, esconde-esconde, clubinho ou futebol. Naqueles tempos, as ruas não significavam tanto perigo. Os acidentes aconteciam mais em função das brincadeiras.

Os amigos moravam na mesma rua, no máximo no outro quarteirão. Um quebrou o braço; o outro, a cabeça. De opinião forte, o que sofreu a queda mais perigosa preferiu voltar para casa com a cabeça toda enfaixada a usar uma redinha mais delicada sugerida pelo médico. Levou vários pontos. Ficou em observação. E assim eles cresceram, cada um a seu modo, bem-educados, sensíveis e ligados na família.

Certo dia, a irmã voltava para casa e surpreendeu-se com a quantidade de gente desconhecida circulando pela sala. Na porta de entrada, como se fazendo de segurança, a namorada do mais velho tranquilizou-a: "Todos participantes da pirâmide, fique tranquila". Dezenas de japoneses entravam e saíam. Foi a forma descolada para juntarem o primeiro dinheiro pro casório, presumo.

Os dois casaram-se quase no mesmo ano. Foi por pouco. A irmã foi madrinha de ambos. Logo ela, pouco chegada a cerimônias do tipo. Mesmo assim, chorou nas duas vezes. Um teve duas filhas; o outro, dois meninos, um deles batizado pela irmã num divertido sorteio ganho também pelo sogro, Serjão. Os padrinhos freqüentaram curso na Igreja Nossa Senhora do Brasil. Os noivos cabularam. Conseguiram o certificado. Até hoje não se sabe como. Da linhagem de pais que fazem questão de participar de tudo da vida dos filhos, sempre estiveram presentes nas mais corriqueiras atividades familiares. Sair sozinhos com as crianças sempre foi diversão.

Quando o pai morreu, se uniram mais ainda à irmã. Talvez por um sentimento masculino de paternidade ou responsabilidade, arrisco. Hoje visitam sempre a mãe e, mesmo morando atualmente no Rio, o mais moço está toda hora em São Paulo. Procura ficar perto da família no fim de semana. Inteligentes, talentosos, amorosos - cada um a sua maneira -, fazem a irmã encher a boca para falar deles. Maior orgulho, pode crer. Seus nomes? Flávio Pinto Teixeira (casado com Maria da Penha de Sá Teixeira) e Roberto Pinto Teixeira (casado com Maria de Lourdes Morello Teixeira). São pais de Ricardo e Pedro de Sá Teixeira, Ana Vitória Morello Teixeira e Ana Helena Morello Teixeira.

(Fernanda Pinto Teixeira)

6 comentários:

Fernando Sant'ana disse...

que texto lindo Fe e, lindamente, muito bem escrito. parabéns!
beijo.

Anny Santos disse...

Pra variar arrasou no texto. E que linda a relação de vocês! As vezes acreditei que isso era impossível e chego até a pensar que um dia serei amiga do meu irmão assim! bjs.

Fê disse...

fernando e anny, vocês me dão muita força, obrigada sempre.beijos, fê

Gigi Magno disse...

Voce tem a canetinha de ouro, ne? Muito comovente...

bj
Gi

Fê disse...

que isso, gi. escrevo porque preciso. bom é você que pode espantar seus males tocando, compondo e produzindo. beijo, fê

Flávio Teixeira disse...

Fernandinha,Você realmente sabe fazer as coisas. Fiquei muito emocionado.Um beijão bem grande. Te amo !