segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Sem razão

Cada vez me convenço mais de que quem precisa gritar ou colocar o dedo em riste na direção de alguém, para defender seu ponto de vista, perde totalmente a razão. Também não acredito nas boas intenções de quem não sorri.

(Fernanda Teixeira)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Aí, acordei na Suíça

por Célia Forte, especial
para o Blog do Dudu

Dia 08 do 08 de 2008 parei de fumar. Porque quis. Porque achei que estava na hora. Porque sei que seria melhor pra minha vida. E porque a data é maravilhosa. Oito do oito do oito, digo orgulhosa. Aí, justamente um ano depois de tal feito, acordo com meu pai dando parabéns, ele que sempre foi um grande incentivador do meu sucesso no quesito tabaco. Filha leia o jornal, veja que País civilizado o nosso. Pessoas denunciando, fiscais por todo lado. Meio dormindo, meio acordada, pego o jornal e, animadíssima, penso que durante esse ano hibernei e o Brasil virou a Suiça. Oba, conseguimos!

Vai ver esses tais fiscais expurgaram do cenário político os calhordas. Pessoas estão denunciando, finalmente. Denunciando o quê? O crime organizado, sequestro, estupro ou desvio de verba? Vai ver os Ministérios conseguiram dar conta da saúde, do saneamento, da educação, moradia, fome, do caos humano. Dignidade para todos os cidadãos. Aquela meia duzia de 50 milhões de pessoas já não vivem mais em estado de pobreza absoluta.

O filho do frentista, que, sem saber, abastece meu carro com gasolina adulterada, conseguiu uma bolsa no Dante. Acabaram as filas desumanas nos hospitais do Oiapoque ao Chuí. Os médicos dos hospitais possuem máscaras e luvas para tratar pacientes com doenças transmissíveis. TODOS os médicos de TODOS os hospitais...hospitais públicos. Putz, nossa, incrível, quanta coisa conseguimos nesse ano e dez quilos a mais que consegui parando de fumar. O quê? Não é possível: Educação para todo e qualquer cidadãozinho, minúsculo cidadãozinho, nascido ou que mora em cima desse solo abençoado por Deus e bonito por natureza!

A população inteira, sem exceção consciente dos riscos da transmissão do HIV e dengue. Essa tal de gripe suina, totalmente erradicada de norte/sul, leste/oeste. Gripe o quê? Ah, já era. Lembro, vagamente, quando até diziam para não ir ao cinema, teatro, show. Sobre transporte coletivo, público ou privado, com gente fungando, tossindo, encoxando, ninguém falava nada. Até achava engraçado essas recomendações... produtor cultural podia falir, empresa pública ou privada não. Ri da piada durante dias. Mas também se bem lembro, assim como nos jogos de futebol, todo mundo que subia num ônibus e metrô entupidos também ganhava uma mascarazinha.

Bem, não lembro direito. Tempos idos...Agora deve estar tudo lindo, pois meu pai, animadíssimo, disse que estava em todos os jornais que só se fala nisso. Pai, nisso o que mesmo? Proibido fumar em tudo que é lugar, disse ele, animado e completou: E quando alguém fuma, tem um montão assim de gente denunciando. E todo o resto, pai? Já está tudo certo? Por que não posso crer que os fumantes passivos morram mais do que todo o resto, todo o resto mesmo, como as pessoas que moram na rua, como as pessoas que atravessam a rua, nos farois, nas motos, nos estádios, de fome, de frio, de pandemia, de falta de amor próprio, de indignação.

Todas essas pessoas já foram informadas e principalmente salvas? Agora só os fumantes passivos morrem esperando um leito sem máscara e luvas nos hospitais? Nossa, ainda bem que não mato mais ninguém há um ano. Ufa! Estamos na Suiça, e agora o Governo tem tempo pra se preocupar com os detalhes, inclusive, acredito, com a quantidade inacreditável de filtro de cigarro na rua, no meio da rua, onde nem toldo tem, porque eles duram séculos e, provavelmente, na próxima enchente entupirão todos os esgotos. E o banido fumante nem vai ter casa para fumar seu horripilante cigarro. A casa terá ido por água abaixo. Claro, vamos todos seguir o exemplo do respeitadíssimo senador Sarney, ou do injustiçado, segundo nosso presidente, senador Collor, e parar de fumar, porque senão centenas de fiscais multarão você, fumante sem vergonha, e outros milhares de cidadãos vão, escondidos, pegar o celular e denunciar você, vilão absoluto dessa história.

Bem, finalmente, pego o jornal e leio a primeira página mostrando o êxito da guerra: 887 estabelecimentos fiscalizados em um único dia, multas em 5%. Nunca vi essa eficiência da Vigilância Sanitária.. .Abaixo, em letras menores, leio, acordando do sonho e indo de encontro ao pesadelo, que Sarney se livra de todas as ações no Conselho de Ética e ainda lá, embaixinho, sobre os números da gripe. Engraçado, está esquentando e da prevenção da dengue, ninguém fala nada. Será que a danada da gripe matou todos os mosquitos? Leio, releio e nada. Fecho o jornal, na verdade amasso o jornal, pego o álcool gel, aperto o botãozinho do elevador, passo gel de novo, querendo matar o vizinho que tossiu a menos de um metro do meu nariz e vou pra calçada em solidariedade aos meus ex-colegas fumantes, os bandoleiros e bodes expiatórios de plantão.

De repente, uma mulher correndo me dá um empurrão...vira-se, pede desculpas e diz que está atrasada para encontrar o marido na cadeia, não queria perder o horário da visita, pois lá, com toda certeza poderá fumar sossegada no pátio, sem a companhia de contraventores. Não falou exatamente contraventor, mas o sentido era esse. Uns três homens atrás de mim, correndo entre baforadas e gritos, imploravam para que os levassem juntos. Pelo que ouvi, preferiam aquela prisão por motivos, do que a que estavam vivendo aqui fora!

Pergunto-me: Será que com conscientização todos ou a esmagadora maioria não acataria normas anti-tabagismo? O governo acredita no fumante como eleitor e não acredita no fumante cidadão? Quero ter peito de dizer no palanque: Recuso-me a receber votos de fumantes. Eles não são confiáveis! Ora, ora, poderiam contratar meu pai pra campanha! Ele confiou em mim. Tenho certeza de que ele conseguiria fazer metade da população fumante parar de fumar só pra não ouvi-lo mais falar na sua orelha. Comigo funcionou e os anjos sejam louvados, senão agora eu seria uma mulher literalmente sem teto e, de uma hora pra outra, banida do convívio com os bons. Só mais uma perguntinha: Será que alguém vai repudiar se encontrar algum Príncipe do Mensalão sentado tranquilamente nos restaurantes pagando a conta com o dinheiro do fumante-contribuinte?

(Célia Forte)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Bossaudade, por Maria Lucia Candeias



Mal poderia imaginar que Maria Lucia Candeias, conhecida crítica de teatro, teria também sua face cantora. E das boas. Chegou aqui para nós um CD seu, com participação de Renato Mendes, uma bela produção, encarte e tudo, com os dizeres "Promocional Invendável". Qual foi a minha surpresa em ouvir o vozeirão cantando Da Cor do Pecado, Lupcínio Rodrigues, Johnny Alf... Na contracapa, ela diz: “Se gostarem da voz da coroa (o que espero) isso se deve a Fernando Palau e à moderna tecnologia que ele manipula como um rei”. Pode guardar a modéstia que a voz não faz nada feio, e gostamos sim, bastante. Embalou a tarde aqui na Arteplural.
(Ligia Azevedo)

No encarte do CD, irreverente, ela pergunta se o velho e batido ditado "panela velha é que faz comida boa" também funciona para música. Figura, ainda bem que se animou. Como professora de teatro da Unicamp (hoje aposentada), Maria Lúcia explica que carrega ranços da academia e por isso escolheu um tema: saudade. Reuniu 16 músicas, escolhidas a quatro mãos, com o produtor Renato Mendes, que gravou no Studio Records (SP). Com seu vozeirão, ficou uma delícia ouvir Da Cor do Pecado (Bororó), Risque (Ary Barroso), Copacabana (Braguinha e Alberto Ribeiro), Nunca (Lupiscínio Rodrigues) ou Chega de Saudade (Tom Jobim e Newton Mendonça). Maria Lúcia Candeias, querida amiga de anos, por essa a gente não esperava! Parabéns!
(Fernanda Teixeira)

Estupidez insana

Momento triste vive a democracia brasileira ao apoiar incondicionalmente Hugo Chaves, que está instaurando um das ditaduras mais descaradas da história, na Venezuela. Falando no tema, nunca entendi por que um de meus ídolos da MPB, Chico Buarque, sempre fez questão de dar seu apoio ao ditador cubano Fidel Castro. De direita ou de esquerda, ditadura é ditadura. Cercea direitos, comete crimes políticos, acaba com a liberdade de pensamento, censura e proíbe ideias e comportamentos. De qualquer forma, é uma estupidez insana.
(Fernanda Teixeira)

terça-feira, 28 de julho de 2009

Engenho Mostra Um Pouco do Que Gosta

Em agosto acontece a 4ª Edição do Engenho Mostra Um Pouco do Que Gosta, uma iniciativa do Engenho Teatral, conceituado grupo de teatro, cuja sede está montada ao lado da Estação Carrão do Metro, na Zona Leste, dentro do Clube Escola Tatuapé (Parque da Prefeitura que alguns moradores da região ainda conhecem como Sampaio Moreira). A cada final de semana, uma Cia de Teatro é convidada a se apresentar, sempre aos sábados e domingos, às 19 horas. A mostra reúne grupos e peças representativas do cenário paulistano. Os ingressos são gratuitos. Mas atenção! É recomendado chegar com, pelo menos, 1 hora de antecedência, pois os espetáculos costumam lotar.

A primeira a se apresentar é a Cia São Jorge de Variedades com a peça Quem Não Sabe Mais Quem É, O Que É e Onde Está, Precisa Se Mexer, nos dias 1 e 2. Baseado na obra de Heiner Muller, o espetáculo discute o marxismo, a luta de classes e outros elementos da revolução socialista com humor e contemporaneidade. Em busca de respostas para o agora, três jovens revolucionários desenvolvem planos e ações para reverter o quadro da imobilidade. Os jovens são cheios de vida e intenções. Têm inteligência, ideais, coração, mas vivem o patético da ação aprisionada. A montagem, porém, está longe de ser pessimista em relação ao destino humano. A peça rendeu à São Jorge a indicação ao Prêmio Shell 2009 na categoria especial pela pesquisa e criação.

Dias 8 e 9 é a vez da Cia Estável de Teatro com o elogiado Homem Cavalo & Sociedade Anônima. A peça apresenta um cruzamento de situações sobre trabalho, moradia e consumo, costurado pela fábula de um homem animalizado e explorado em seus esforços por sobrevivência. O assunto é sério, mas é tratado com tons de ironia e bom humor. O espetáculo é resultado de uma pesquisa de mais de dois anos dentro de uma casa de acolhida para homens em situação de rua. Comparado ao clássico Eles Não Usam Black-Tie, de Guarnieri, pelo Jornal O Estado de São Paulo, como o Black-Tie dos dias de hoje.

Nos dias 15 e 16 o Grupo Clariô apresenta Hospital da Gente. Espetáculo construído a partir dos desconcertantes contos/cantos do escritor pernambucano Marcelino Freire. O Grupo Clariô de Teatro criou uma favela em seu espaço (Espaço Clariô em Taboão da Serra) para a realização da peça que conta com 7 atrizes no elenco. Trabalhadoras do Brasil abrem as portas dos seus barracos para revelar a que vieram, qual o seu papel, seu lugar no caos. O Clariô recebeu o Prêmio da Cooperativa Paulista de Teatro 2008 pela Ocupação de Espaço e Grupo Revelação.

A Cia Os Crespos leva seu Ensaio Sobre Carolina, dias 22 e 23. A peça é baseada no diário da catadora de papel Maria Carolina de Jesus (1914-1977), publicado em livro com o título Quarto de Despejo, Diário de Uma Favelada. O grupo, formado por negros, surgiu na EAD (Escola de Arte Dramática da USP). Em comum, a vontade de discutir a sua formação e, como foco, estudar a história do negro nas artes cênicas no Brasil, numa instituição em que essa discussão não existia. O grupo utiliza a dança, o canto e o corpo como linguagem. Ensaio Sobre Carolina também foi selecionada para o Projeto Vitrine Cultural do Centro Cultural Grupo Silvio Santos, onde entra em temporada a partir de setembro.

Fechando a Mostra, a Brava Cia apresenta o espetáculo A Brava, nos dias 29 e 30. Inspirado na história de Joana d’Arc, a trupe propõe uma reflexão sobre os objetivos, rumos e escolhas de cada indivíduo e sua postura frente às conseqüências destas escolhas. Nesta montagem, a saga da heroína francesa é mostrada de forma épica, valendo-se de recursos como a música e a interação com a plateia, referências da cultura popular e da cultura pop, agregadas a situações cênicas que exploram o drama e um humor anárquico, para construir paralelos com os dias de hoje. A Brava foi contemplada com o Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro 2009 como Melhor Espetáculo de Rua.

Engenho Teatral
Rua Monte Serrat, 230 - Estação Carrão do Metrô.
Clube Escola Tatuapé. Estacionamento no local.
Telefone para informações - 2092-8865.
Homem Cavalo & Sociedade Anônima

A Brava

(Adriana Balsanelli)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Like Sophie

Isso é um plágio. Sophie Calle namorou alguns meses com o autor do email que ficou famoso, mote da exposição no Sesc Pompas. Eu, nem sequer cheguei a beijar o autor deste email, mas passei no mínimo uma semana pensando no estado das coisas neste início de século 21. Como Sophie, pedi ajuda a outras mulheres na interpretação do texto. Abaixo, o email recebido em junho de 2009. Sinta-se à vontade para dar sua interpretação.
"Renata, tudo bem?
Entonces, desculpe se parece que estou te ignorando, mas é que não sei muito bem como reagir aos seus emails.
Vou tentar ser claro: Como disse no bar, estou há algum tempo fechado pra balanço, e quero continuar assim. Minha vida, minha casa, minha rotina, meu tempo...tudo está montado de uma maneira egoísta, em que eu só preciso cuidar de mim.
Sei que a gente não está falando de viver junto até os 375 anos, ter 227 filhos, 439 cachorros, 256 gatos e 2115 papagaios, mas digamos que a gente fique. Depois de ficar tem o lance de ter de ligar, pra deixar claro que o outro é especial, que a coisa foi muito bacana e taus. E aí entra o: "Se foi bacana, por que não de novo?".
E aí a coisa vai.Não quero esse vínculo, esse lance de ter de mostrar/provar que o outro é especial pra mim. Assim como não quero ter a responsa de ser especial para alguém.Uma hora isso muda.Mas por enquanto é isso.Espero que você entenda".

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Horinhas de Descuido

Hoje o dia amanheceu mais quente. Mais feliz pra quem detesta passar o dia encolhida. O "agitinho" da manhã brotense, a disposição das pessoas com mais um dia começando e a convicção de que vamos sobreviver, pelo menos por hoje. Ao chegar a minha mesa de trabalho deparo, como todos os dias, com o Estadão (assinado pela família desde o nº 0).

E aí minha manhã começa a mudar ao ver estampada a foto de Lula e Collor se abraçando, ambos muito felizes. No rodapé, a frase do Presidente : "Quero fazer justiça ao senador Collor". E essa não é a manchete, que diz assim: "Oposição acua Sarney e governo blinda investigação".

Embora calejada, e estagnada com tanta barbaridade das quais nos tornamos meros espectadores, não tenho como deixar a tristeza e a desesperança me invadirem. Faço um retrospecto dos tempos que saíamos às ruas para lutar por um presidente do povo ou para derrubar um presidente dos marajás. Que força, que paixão, que esperança...

E agora ? O que a gente faz? Se deprime, chora, esperneia, só assiste ? Será mesmo que todo mundo tem um preço? Será que nós também devemos nos entregar as manobras da corrupção ? Será que meus acentos estão no lugar certo ? Se não tiverem peço desculpas, mas não estou conseguindo acompanhar tanta mudança.

Abandono o jornal e resolvo ir comprar mamão e banana para o café da manhã da Dona Ermínia, minha mãe. Isso sim, é felicidade. Ela prefere a nanica, e vocês? Como deixou escrito o sábio Guimarães Rosa : "A felicidade se acha em horinhas de descuido"!
Tenham todos muitas horinhas de descuido hoje e sempre. Beijos.

Célia Jordani, especial para o Blog do Dudu