sexta-feira, 6 de março de 2009

Desabafo

Uma insanidade a atitude do bispo da Igreja Católica, que excomungou os envolvidos no caso do aborto da menina de 9 anos, estuprada pelo pai. Enquanto isso, Fernando Collor de Mello volta com tudo, apoiado por ninguém menos que Renan Calheiros. Que País é este? Se Henfil estivesse vivo, pelo menos teríamos motivos para achar graça de um desses casos vistos pela lente irônica do artista. Também sinto falta daquelas músicas de protesto. Onde estão os artistas indignados? Nos EUA, a Califórnia vota contra a união dos homossexuais.....Que Primeiro Mundo que nada! É de quinta esse mundo!
(Fernanda Teixeira

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Os azulejos amarelos do Frevinho

O amarelo dos azulejos da parede e o vinho do estofado das cadeiras e bancos do balcão do Frevinho (quando eu e meus irmãos éramos garotos, adorávamos tomar ice cream soda e comer beirutinho lá) acionaram o mecanismo de volta ao tempo na minha memória.

Minha mãe conta que, grávida de mim, costumava tomar baldes de suco de laranja. Recém-casados, ela e meu pai moravam na esquina das ruas Augusta e Antônio Carlos, pertinho dos cinemas Majestic e Picolino e em frente à lanchonete Long Champ, lugar bacana, decorado com motivos equestres. Era só atravessar a rua para o suco de cada dia, entre uma e outra mesa de pôquer, porque minha mãe adorava uma jogatina, era craque no baralho. Tanto que algumas vezes saiu da mesa de jogo direto para a maternidade.

Nessa época, ela cortava o cabelo no Jamber, que ficava embaixo do nosso apartamento. Com uns 6 anos, lembro de nosso dentista, Dr Brink, nos levar para casa depois de uma consulta – o consultório dele ficava na Augusta também - em seu Karman Ghia vermelho. Essa deferência se explica porque éramos as primeiras pacientes dele. Anos mais tarde, freqüentei o mesmo Long Champ com o pessoal da Faap. O lugar tinha virado cult e toda a moçada do cinema costumava ir lá para comentar os filmes cabeça e comer aqueles sanduíches envolvidos em saquinhos de papel.

Os olhos azuis, a pele branca, magra, cabelos castanhos, óculos gatinho, descobri que a minha mãe, Nair Pinto Teixeira, pulava a janela da casa onde morava em Botafogo, Travessa Visconde de Moraes (uma tripinha de rua que sai da São Clemente), no Rio, para namorar meu pai, José Fernando Gonçalves Teixeira.

Portugueses, meus avós maternos, Laurinda dos Santos Pinto e Francisco dos Santos Pinto, não davam mole. Linha dura, deviam fazer marcação serrada. Era como se minha mãe fosse a caçula de três irmãos – Agostinho (nascido em Portugal), Yolanda e Olympio. Eu e meus irmãos convivemos muito com esses tios, que chegaram a morar com a gente, menos o Tio Agostinho. Do tio Olympio tem uma história interessante: ele se casou com a Cida, Maria Aparecida Ferreira da Silva, moça que trabalhava na casa dos meus pais, e teve dois filhos, meu afilhado Fernandinho e o Rodrigo.

Voltando a minha mãe, pela foto no meu porta-retrato acho, suspeita que sou, que ela tinha um ar de Jackeline Kennedy. Vestia roupas básicas, mas elegantes. Também por fotografias amareladas pelo tempo deduzo que, jovem, meu pai gostava de se arrumar. Usava bigode, calça de prega, camisa com a manga enrolada até um pouco acima do cotovelo. Um charme.

Os meus avós portugueses vieram de navio de Portugal (onde tinham terras), especificamente da cidade Marquês de Canavezes direto para o Rio. Primeiro meu avô, depois minha avó, que era da cidade do Porto. Os irmãos do meu avô tinham uma serraria ou uma marmoraria no Rio, minha mãe não se lembra ao certo, e chamaram o irmão Francisco para vir para o Brasil trabalhar com eles. Depois meu avô comprou um táxi. Lembro dele me contar umas histórias interessantes de ter levado em seu carro Carlos Lacerda e Getúlio Vargas.

Já meus avôs paternos eram primos irmãos e cariocas, Carmem Gonçalves da Silva e Jayme Penna Teixeira. Luiz Gonçalves da Silva, pai da minha avó Carmen era médico e quando veio para São Paulo abriu uma fábrica de banheiras, no tempo em que o conde Matarazzo vendia sabão de porta em porta. O vovô Jayme foi trabalhar na fábrica, depois de largar um emprego na Light.

Minha companheira de chope volta do banheiro e eu, à realidade. O resto da história fica para outra vez.
(Fernanda Teixeira)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Surpresa


Almoço com os amigos e parceiros de trabalho Marília Toledo e Kleber Montanheiro (APCA 2008 de direção por Sonhos de uma Noite de Verão) no Planeta´s. A dramaturga e produtora (indicada ao prêmio Shell de melhor autor, ao lado de Marçal Aquino por Amor de Servidão, que re-estreia nos Parlapatões dia 5 de março) e o diretor, figurinista e cenógrafo formam uma dupla das mais quentes do teatro. E vem novidade das boas por aí. Já já ficamos sabendo.
(Fernanda Teixeira)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Leia Talento é um Aprendizado, de Marta Góes

Saí da entrevista com Regina Braga com um presente dado pela própria atriz: sua biografia, assinada pela jornalista e dramaturga Marta Góes, Talento é um Aprendizado, da coleção Aplauso, Imprensa Oficial. Na tarde quente, ela, o ator Rodolfo Vaz e o diretor Moacir Chaves conversaram comigo e com Lígia Azevedo sobre Por Um Fio, numa sala de ensaio na rua Maria Antonia. A peça, baseada no livro homônimo de Dráuzio Varella, estreia aqui em São Paulo no começo de abril, no Teatro Anchieta. Por conta do espetáculo, falamos da perspectiva do tempo, do novo sentido da vida quando deparamos com a proximidade do fim. Ver a vida com outros olhos, saber aproveitar os momentos como se cada instante fosse o mais importante. Foi muito gostoso compartilhar esses assuntos com eles.

Voltando ao livro, devorei-o em dois dias, lembrando de várias situações de nosso encontro. Muito mais que um perfil da atriz Regina Braga, a obra é uma delícia, parece um romance, prende a atenção do começo ao fim. Escrito com o talento e a sensibilidade da Marta Góes, seu ritmo e edição fazem da leitura um grande prazer. Fala nas entrelinhas do aprendizado que vai se transformando em talento, com garra e trabalho sempre. Eu - que já li vários livros dessa coleção – me deixei levar como se num romance. Tenho orgulho de ter sido repórter frila no tempo em que a Marta editava o Caderno 2.

Michel Melamed, o poeta
No dia seguinte, novamente eu e Lígia saímos a campo, dessa vez com a missão de entrevistar o ator carioca Michel Melamed, que chega por aqui no começo de março, também no Sesc Consolação, com o espetáculo Homemúsica. Alto, a pele bronzeada, suor no rosto, chegou esbaforido, direto do aeroporto, vindo do Rio, para nos conhecermos no café bem ao lado do Teatro Sesc Anchieta. (Nossa saída em dupla tem explicação: ando rouca e pego emprestada a delicadeza da Lígia para poupar minhas cordas vocais.)

Entre o simpático e o desconfiado (era nosso primeiro encontro), Michel pareceu mais forte fisicamente que nas cenas de Capitu, minissérie de Luis Fernando Carvalho, no papel de Bentinho e Dom Casmurro. Papo bom, logo percebemos o cara bem-humorado, que, depois de 15 minutos de conversa, já nos deixava muito à vontade. Até brincávamos por conta do convite recebido por ele para desfilar em uma escola de samba que vai homenagear Machado de Assis na Marquês de Sapucaí. Ele não decidira se aceitaria ou não. "É para desfilar semi nu", disparou à queima-roupa, com aquele olhar de poeta urbano, contemporâneo. Quando percebeu que tínhamos acreditado (realmente pensamos que sairia sem camisa), caiu na gargalhada. Se a produtora Bianca não nos chamasse à realidade (eles teriam uma reunião em seguida com o pessoal do Sesc), poderíamos ter ficado jogando conversa fora por um bom tempo. Em casa, fui até a estante e folheei Baudelaire, Ana Cristina Cezar e Rimbaud, ouvindo Cazuza.

*** A propósito, a "culpa" desse belo encontro é da jornalista e dramaturga Célia Forte e das produtoras Cristina Sato e Fernanda Signorini.
(Fernanda Teixeira)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Tributo a Monsueto não é importante?

Depois de 8 anos de redação, hoje transito do outro lado, na Arteplural, uma assessoria de imprensa. De qualquer forma, antes de tudo, sou jornalista, gosto de notícia. Ofereço pautas dos nossos clientes, sempre procurando ficar isenta. Escolhemos trabalhar com assuntos de qualidade que sempre despertem a atenção dos coleguinhas do lado de lá do balcão, alguns deles com quem dividi a mesma redação.

Então, acontece que a cantora Virgínia Rosa acaba de lançar um disco em homenagem a Monsueto. O CD Baita Negão tem participação especial de Martinho da Vila, um dos mais fiéis amigos do artista, e Oswaldinho da Cuíca. As 11 faixas foram produzidas, cada uma, por um produtor diferente: Geraldo Flach, Jair de Oliveira, Dino Barioni, Douglas Alonso, Skowa, Che, Celso Fonseca, Swami Jr. , Quinteto em Branco e Preto, Quinteto da Paraíba e Nailor “Proveta” Azevedo

Capa preta com marca d’água que reproduz um disco de vinil, a apresentação do CD é caprichada. Patrocinado pela Petrobrás, com direção artística e concepção geral de Virgínia Rosa e Fernando Cardoso, produção executiva da Mesa 2 Produções e Selo SESC, o disco é lançado agora, nos 35 anos da morte do sambista (1/11/1924 – 17/2/1973), que transitava por todas as escolas de samba sem ser diretamente vinculado a nenhuma, autor de sambas clássicos como Mora na Filosofia e Me Deixa em Paz.

Como a obra de Monsueto não foi reeditada em CD (Monsueto gravou apenas um LP, Mora na Filosofia dos Sambas de Monsueto, pela Odeon em 1962), esta homenagem ganha valor maior, pois recupera músicas desse sambista, cantor e compositor carioca, que também foi ator (trabalhou no cinema e na tv, onde interpretava o popular personagem Comandante, que lhe valeu o apelido, na TV Rio) e artista plástico (com a pintura primitivista participou de exposição e chegou a ganhar prêmios).

Tem muita gente que não sabe que Monsueto foi autor de canções que se tornaram clássicos da MPB, como Mora na Filosofia (em parceira com Arnaldo Passos), A Fonte Secou (com Marcelo e Raul Moreno) e Me Deixa em Paz (com Ayrton Amorim), algumas delas regravadas: Alaíde Costa gravou Me Deixa em Paz no disco Clube da Esquina, de Milton Nascimento; Caetano Veloso gravou Mora na Filosofia no disco Transa, e muitos outros. Curiosidade: para o CD, o poeta Tiago de Mello refez trecho da letra de Faz Escuro Mas Eu Canto, composta na época da Ditadura.

Gastei todo esse espaço para falar de Monsueto a propósito da resposta de um amigo jornalista de uma importante (e careta na mesma proporção) revista semanal de informação. Especializado em música, conheço-o desde o final dos anos 80, quando eu trabalhava na Folha da Tarde e ele no Notícias Populares, do mesmo Grupo Folha. Depois de encontrá-lo na cantina Nelo's, no fim do ano passado, quando ele me cobrou o disco da Virgínia, liguei para saber se haveria interesse em dar um registro da obra na revista - já que o produto é bom e Monsueto é tudo o que disse lá em cima. Ele simplesmente respondeu que não gostou do disco. Eu acatei e acato, afinal o espaço é dele. Mas fico com a sensação esquisita de que um veículo não pode privar um monte de gente de conhecer quem foi Monsueto apenas por uma questão de gosto de um jornalista.

(Fernanda Teixeira)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Teatro Imprensa escolhe 12 peças para ocupar suas salas em 2009

O Teatro Imprensa deu um passo que garantirá parte do que há de mais contemporâneo no teatro da cidade para suas salas. O Centro Cultural Grupo Silvio Santos recorreu aos jornalistas Valmir Santos e Kil Abreu para fazer a curadoria do Projeto Vitrine Cultural, que analisou mais de 400 e selecionou 12 espetáculos. O intuito é fomentar projetos com forte potencial artístico. Resultado: ocuparão o teatro este ano, entre outros, Juliana Galdino (ex-Medéia, de Antunes Filho); Janaína Leite (talentosa atriz do premiado grupo XIX); Cássia Goulart (indicação ao prêmio Shell 2008 de melhor atriz) e Os Crespos, grupo de atores negros que espetáculo de alta qualidade na cidade, porém pouco divulgado.

"Fizemos apostas, esperamos ter escolhido o melhor, embora ao menos 90 peças tivessem potencial para ocupar as salas do Teatro Imprensa", disse Kil Abreu, um dos curadores. Ele ressalta a vantagem de um espaço que abre suas portas para fomentar o teatro em pleno ano de crise. As peças 'Cachorro Morto', de Leonardo Faria; 'Quase Nada', de Alain Brum; 'Frozen', de Rachel Ripani, e 'Music Hall', de Gabriela Flores, também prometem forte qualidade artística. Há também o espetáculo 'Henfil Jà!', de Curitiba. Foram escolhidas, ainda, três peças suplentes para o espaço: a peça 'Pelo Cano', da palhaça Paola Musatti; 'As Alegres Comadres', de Tetembua Dandara, e 'A Mão e a Luva', do Núcleo de Estudos do grupo Tapa. Este conteúdo premiado servirá a um bom objetivo: formação de público. Cada uma das peças ficará em cartaz por três meses a preços populares (R$ 10), com duas apresentações por semana. O projeto prevê investir cerca de R$ 1 milhão com o apoio da Lei Rouanet. Os espetáculos receberão cachê sempre como se a sala tivesse sido lotada, no caso do Espaço Vitrine (48 lugares).

Para a Sala Imprensa (452 lugares), foram selecionadas as peças 'Amanhã é Natal', 'Eldorado' e 'O Livro dos Monstros Guardados'. Para a Sala Imprensa há apenas um suplente, o espetáculo 'Réquiem'. A premiada produtora de teatro infantil e também diretora do Centro Cultural Grupo Silvio Santos, Cintia Abravanel, anunciou que a intenção é fazer com que programa continue e possa sempre privilegiar boas produções artísticas na cidade.

Os Escolhidos
ESPAÇO VITRINE
Bartleby
Cachorro Morto
Comunicação a Uma Academia
Ensaio sobre Carolina
Festa de Separação
Frozen
Henfil Já!
Music-Hall
Quase Nada
SUPLENTES
Pelo Cano
As Alegres Comadres
Mão na Luva
SALA IMPRENSA
Amanhã É Natal
Eldorado
O Livro dos Monstros Guardados
SUPLENTE
Réquiem

Juan Velásquez – especial para o blog do dudu

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A vida vale pelos encontros

Os encontros que a vida nos proporciona são os momentos mais saborosos da existência. Conhecer pessoas interessantes - sejam elas sensíveis, inteligentes, criativas, engraçadas ou afetuosas - é revigorante, como se a gente tivesse ganhado o dia. Foi com essa sensação que nós saímos do almoço com a cantora Marina de La Riva e o pianista Nelson Ayres, depois do show que eles apresentaram no Cosipa Cultura. Também dividimos a mesa com a simpática Patrícia Kisser, empresária da artista, Maitê Urias do Santos, produtora do teatro e o produtor José Maria Pereira Jr, da Mesa 2 Produções.

Antes, fomos brindadas por um impecável pocket show, às 12h30, no projeto A Mulher e o Piano, série de shows idealizada pela Mesa 2 Produções, com cantoras e pianistas. No restaurante por quilo, ficamos à vontade para bater papo enquanto devorávamos a comida. Ficamos ainda mais encantadas com a simplicidade e a simpatia de Marina e Nelson. Todos bons contadores de histórias, entre um e outro caso, ficamos sabendo que Marina é magra de ruim. Brincalhona, Patrícia entregou os pecados da gula da cantora, que caiu de boca na feijoada.

Além da conversa agradável, o papo foi regado a passagens engraçadas, contadas por Marina com as devidas intervenções de Patrícia Kisser, que perde a cantora, mas não perde a piada. Não vamos esquecer quando Marina ganhou dois vestidos, na época em que dividiu o palco com Frank Sinatra Jr., na turnê que este fez pelo Brasil, ano passado. Os modelitos tinham 17 metros de saia, o que deu muito trabalho para a produtora carregar sem amassar ou estragar os mimos da cantora.

No final do almoço, Marina foi abordada por um rapaz que queria um autógrafo no seu CD. Ela não perdeu tempo para mostrar a Nelson Ayres que tinha feito uma dedicatória a ele no CD. O pianista não sabia. No encarte do disco estava escrito "para meu eterno muso Nelson Ayres..." , e ela aproveitou para nos contar por que ele era seu muso. Disse que, um dia após show que fizeram juntos, tiveram longa conversa sobre música. Nelson nem desconfiava que o diálogo tinha sido determinante para Marina decidir os rumos de sua carreira e abraçar a definitivamente “sua música”. Foi ali que ela resolveu exatamente o que realmente queria fazer.

Para completar, Marina revelou, ainda, o lado engraçado do maestro, quando contou que, a pedido de um jornal, escreveu um artigo sobre um pianista cubano. Depois de pesquisar sobre a vida e a obra do músico (que se apresentaria em São Paulo), para elaborar ainda mais seu texto, resolveu, então, recorrer ao amigo Nelson Ayres, para quem perguntou, por email: "O que passa pela cabeça de um maestro durante uma apresentação?". Ao que o brincalhão Nelson não titibeou: “Ele fica pensando em como fazer para ficar com a bilheteira do teatro no final do show”.

(Adriana Balsanelli e Fernanda Teixeira)