sábado, 29 de março de 2014

Nao avise a polícia!


Não avise a Polícia!

____________________________________________________________

Soldados, soldados, soldados!  Até hoje me pergunto por que não me tranquei em casa com os dois. Eles eram muitos soldados. Passavam sentados na caçamba de caminhões ou em tanques de guerra, com canhões de 10 metros. Nos capacetes de ferro, as letras PME em maiúscula, pintadas de branco. Em posição de combate, posavam sobre as escotilhas dos veículos.

Em frente ao quartel general do Exército, a concentração de policiais e equipamentos bélicos produzia euforia nas crianças. Outono de 1964, São Paulo, rua Manoel da Nóbrega. Flávio observava da garagem do sobrado o vaivém dos soldados descendo e subindo a rua. Naquele dia foi diferente da troca de guarda diária. O tom monocromático das roupas destoava do vestido vermelho de bolinhas brancas da Nanda.

Ir com eles até a padaria poderia nos salvar do pesadelo?  Cabelo cortado rente, Flávio imitava os gestos e o jeito cadenciado de andar dos recos. Não andava, marchava, pisava duro, um pé depois o outro. O vento varria árvores nervosas e meus dois filhos brincavam na calçada de casa. A multidão cobria o asfalto. Nossa, que perigo! Tum-tum, Tum-tum, Tum-tum, o peito arfando, as mãos soldadas nas das crianças, decido furar a concentração humana  espalhada pela rua, em frente à nossa casa. Com licença, perdão, posso passar? Cuidado, estou com filhos pequenos! Não se pendura, menino, assim não aguento seu peso. Levados, ele e a irmã, 2 e 4 anos, se esbaldavam enquanto eu olhava ao redor.  O céu chumbo-oliva.

Vamos, crianças, não saiam de perto, não soltem as mãos! Armada de coragem, segui, empurra daqui e dali, à procura de brechas entre policiais fardados empunhando fuzis e cacetetes. Óculos gatinho, tailleur rosa pálido, cabelo penteado, batom, leve rouge nas maçãs do rosto - porque eu gostava de sair de casa arrumada, nem que fosse para ir até a esquina resolvi encarar a confusão. Uma esquisitice no estômago, fomos comprar pão. Tentativa de mudar de cenário. Licença, licença, por gentileza, o senhor pode afastar um pouco, preciso passar! Com toques nas costas dos soldados, abria espaços. Logo alcançamos a padaria.

Meia dúzia de pãezinhos franceses, por favor! Saíram agora? Um guaraná e dois drops dulcora também! Exausta, uma luta cuidar deles correndo no chão engordurado. No balcão, homens bebiam cerveja, os ouvidos grudados no rádio de pilha. Cheiro azedo de bebida misturado à fritura. Pronto, crianças ajudem com os pacotes! Vamos embora, O que está olhando, Nanda? Esses retratos engraçados, mãe! Vire pra lá, depressa, não quero que nos vejam, pode chamar atenção. Puxei os dois.

Sem entender por que era impedida de olhar as fotos, a pequena obedecia mas nunca mais esqueceria a estranheza daquele tremor suado nas mãos da mãe. Curiosa, na certa ficou com o desejo de ver um bocadinho mais as imagens. Quem sabe encontrar entre as fotografias a do primo mais velho, intelectual, barba e óculos, que no futuro daria aulas na universidade. O nome dele, com certeza, ela já ouvira sussurrado quando os adultos conversavam pensando que as crianças brincavam desatentas. Um fiapo de medo mesclado com orgulho tirou o embrulho do estômago. Eu mesma mais nunca vi o primo Daniel. Quando encontrava seus pais nas férias cariocas, instaurava-se um silêncio trágico.

Eu fingia não ver e queria esconder dos meninos, criança é curiosa, pergunta tudo. Mas o cartaz estava lá - pregado com durex no azulejo ensebado -, revelando fotos três por quatro ampliadas, com rostos de homens e mulheres em preto e branco, e dizeres: Terroristas e Subversivos Procurados Ajude a Proteger sua Vida e a de seus Familiares Avise a Polícia. Quando cresceram um pouco, encontrei as palavras certas para explicar a meus filhos por que a polícia não gostava do nosso primo, um dos "Procurados" do cartaz. Tinha pegado em armas, havia sequestrado o embaixador alemão e fora exilado.


Fernanda Teixeira

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Da série, cães dos amigos

Juju, Júlia Roberts,
da querida Salete



sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Cães da nossa vida



Coca

Nana

Nana, Didá e Coca

                                                                            Jade



Júlia

Lili

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Dudu, Nana e Coca 






quinta-feira, 13 de junho de 2013

DA VINCI E MAQUIAVEL REVOLUCIONARAM O MUNDO DESDE O RENASCIMENTO


Da Vinci revê entre outras antigas crenças as formas e ideias sobre o corpo humano e as expõe verbalmente, mas mais ainda através de suas pinturas. Ele (Tadeu di Pietro) encontra Maquiavel (Tadeu de Pietro também) que o público diferencia devido aos ótimos figurinos que foram criados pelo diretor Elias Andreato que assina ainda a cenografia e a iluminação, mostrando competência em todas essas atividades, que colaboram para o ótimo espetáculo.

Maquiavel é o principal protagonista, expondo com clareza suas ideias de que o homem é uma criatura que se move segundo seus próprios interesses e não por forças externas místicas ou não. Quem nunca se deteve na leitura de “O Príncipe” levando em conta a revolução que foi e são suas ideias precisa correr para ver. Vale muito a pena. O texto elaborado por Miguel Filiage e o próprio ator teve supervisão de Chico de Assis e é sucinto, assim como claro. Até didático – sem esquecer que não se trata de uma aula – como convém a peças teatrais. Especialmente indica ao público jovem, a meu ver.

Além dessas qualidades. o espetáculo se passa no MUBE Museu Brasileiro da Escultura que divide um terreno na avenida Cidade Jardim esquina de rua Alemanha, Jardim Europa, com o Mis, Museu da Imagem e do Som. Locais extremamente agradáveis de se visitar, ambos atualmente exibindo várias peças.
Se você se interessou pelo tema Leonardo Da Vince e Nicolau Machiavel, não deve perder, pois é um  assunto que continua atualíssimo, com ótima atuação de Tadeu de Pietro e excelente direção de Elias Andreato. 

Maria Lúcia Candeias 
Doutora em teatro pela USP e Livre Docente pela Unicamp   

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O Perfume do Cadáver

Você não pode encontrar 
paz evitando a vida. (Virgínia Woolf) ___________________________________________________________________ 

Lembro com carinho do velório de JR. A placa de plástico preta ao lado da porta de vidro fumê. Nela, o nome de José Ricardo Almíscar de Figueiredo escrito em letras amarelas. Ajeitando no nariz os óculos de massa caramelo, entro e dirijo-me ao caixão. Antes, arrumo o nó da gravata estreita de seda francesa e abotôo o paletó do terno azul marinho feito sob medida. O aroma das coroas de flores asfixia parentes, amigos, a viúva traída. Pigarro, mais outro, a tossinha seca, duas gargantas irritadas. Uns fumam. Alguém abre o basculante da janela que dá para a rua. O vento agradável é um novelo de algodão acariciando o rosto dos enlutados.

Antes que me aproxime do corpo, reconheço o delegado, as garotas de programa, o dono da boate, os leões de chácaras, os cantores, o padre. Olho no olho de cada um, cumprimento todos ao mesmo tempo com um movimento lento de cabeça para baixo, os olhos fechados. Avisto o corpo de JR acomodado entre ramos de alecrim e folhas de lavanda. Insustentáveis lembranças. Poderíamos ter sido bons amantes. Deixo os cabelos lisos e compridos caírem sobre o rosto ao me inclinar para beijar a boca do morto. Ninguém nota. Gosto de madeira, perfume de malte escocês. Neurótico que sou, sigo roendo as unhas mesmo relaxado. Sobra uma farpinha. 

De terno de linho claro, camisa esporte e barba feita, JR morreu jovem. Um parque de diversões pela frente. Overdose de pó e uísque. Foi encontrado nu, o corpo torneado, queimado de sol, estirado na cama do flat de luxo. A gente se conhecia desde os 14 anos. No RG, a mesma idade. 33 anos, em dezembro deste ano. Os dois de Capricórnio. Estilista bem-sucedido. Eu me formei advogado. 

Fantasio nossa última noite no dancing. Não me lembro por que nos desentendemos. Concentrado em pensamentos de noites passadas, levo susto com a loira vagaba que, aos berros, se joga sobre o morto. Descontrolada, agarra o corpo de JR alheia ao zum zum zum do ambiente. A cena pega mal, o caixão balança. Na certa, pela manhã, já sabendo do ocorrido, fez os últimos gastos no cartão de crédito dele, logo depois de entrar em seu apartamento e levar o jogo de porcelana inglês. 

Saudades eternas de JR, seu perfume, o velório. Amor que não se enterra e a derradeira cafungada, antes do sepultamento, pelo tubo da bic cristal numa carreira bem esticada de 15 cm sobre a tampa da privada do banheiro. Esta é pra você, meu amor.

Fernanda Teixeira

domingo, 24 de março de 2013

Livros lidos em 2013 - O Filho Eterno - C. Tezza - A Cidade Ilhada - M. Hatoum - Elogio da Madrasta - M V llosa - Kafka e a Boneca Viajante - Jordi Sierra

terça-feira, 12 de março de 2013

PASMEM! UM DIVÓRCIO DE GENTE QUE SE AMOU, PODE VIRAR PIADA.



Não é fácil, mas Franz Kepler conseguiu.  Um casal de advogados divorciados atende dois clientes mais jovens querendo entrar em acordo para assinar o fim do matrimônio. Em geral, quando as relações chegam ao final um culpa o outro  por não formar o par que parecia perfeito no começo do relacionamento. José Rubens Chachá ( como sempre nota mil) faz o defensor da garota jovem, Natália Rodrigues, que interpreta com precisão, uma garota um tanto tímida.  O oposto da defensora do seu ex, Suzy Rêgo, que está o tempo todo fervilhando de raiva, numa composição muito divertida, em defesa do jovem que não gosta de brigar Pedro Henrique Moutinho. Com texto tão diferente e brilhante de Kepler, elenco de ótimo nível o espetáculo já merece ser assistido. Mas não é só por isso.

O diretor Otávio Martins não só brilha como diretor desse elenco, como do espetáculo como um todo.  A iluminação de Wagner Freire é como sempre impecável e de extremo bom gosto. Os figurinos de Marichilene Artisevekis cujo trabalho eu desconhecia são elegantes – mas nem tanto – como pede a peça. A cenografia de Marco Lima é também adequada e bonita, ocupando com inteligência o espaço do Teatro Raul Cortez, cujo palco é enorme  e essa questão se resolve tirando e colocando móveis grandes e muito bonitos. Além disso, não é possível não citar a música original e bem casada com tudo o que acontece em cena, de autoria de Ricardo Severo.

Quem costuma ir ao teatro para se divertir, ou para ver uma encenação excelente, sem fazer a menor questão de grandes nexos ou lições, vai morrer de rir e adorar  “Divórcio”, uma comédia pra lá de divertida. Se é o seu caso, não perca.

                      Maria Lúcia Candeias,
 doutora em teatro pela USP, Livre Docente pela Unicamp.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ENSAIO É DAS MELHORES PEÇAS ATUAIS VISTAS POR AQUI



Leonardo Moreira (texto e direção) focaliza casais - um fato presente em toda a história da humanidade - tentando entender a si próprio e um ao outro. Trata a questão com tanta delicadeza que faz lembrar Tom Jobim: “são as águas de março fechando o verão, é promessa de vida no seu coração”.

Em 1950, quando surge o Teatro do Absurdo era natural um tom muito trágico para tratar das incompetências humanas, como o de Samuel Beckett, mesmo que Eugène Ionesco lidasse com a questão com um humor relativo. Afinal, durante quase todo o século XIX, pensávamos que a razão era perfeita e incapaz de cometer enganos e que a ciência iria resolver todas as nossas dúvidas. Já pensou que futuro chato? Um mundo sem surpresas? Melhor que a vida tenha bastantes ensaios e a gente não tenha certeza de como será a estreia.

Como diretor Moreira acerta também na escolha de apresentar o espetáculo num palco giratório e desse modo trocar os cenários (Andre Cortez e cenotécnicos Gerson Rodrigues e Lázaro Ferreira). O espectador se pergunta se é o mesmo casal em tantos contextos ou se são vários. Nesta mesma linha estão os figurinos de João Pimenta, tão discretos que a gente fica em dúvida se vestem cada personagem em cada cena ou se é o mesmo casal em diversos contextos. O mesmo pode ser dito da música de Marcelo Pellegrini que se preocupa com a emoção focada no momento em cena e só. A iluminação de Marisa Bentivegna emoldura com brilho todas as cenas.

São aspectos que ajudam o espetáculo que além deles contam com excelente elenco: Maria Helena Chira que faz a personagem feminina ou todas as mulheres do texto,Rafael Primot que se encarrega de ser seu par e Fabrício Licursi que participa de tudo na maioria das cenas como fotógrafo. Os três se saem maravilhosamente bem e, participaram da criação da peça.

Por essas e outras, corra ao Centro Cultural Thomie Ohtake, rua Coropés 88, travessa da Faria Lima e da Pedroso de Morais. É um espaço com 96 lugares, mas você não pode perder.
                 Maria Lúcia Candeias
                Doutora em teatro pela USP
                Livre Docente pela UNICAMP  

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A foca e a letra trocada [Texto: Fernanda Teixeira]


Guardo histórias engraçadas do tempo de redação, precisamente, como se diz no jargão jornalístico, quando era foca, nome atribuído ao profissional em começo de carreira que, como o animal em questão, mete o nariz em tudo. Era ainda jornalista desta espécie quando fui trabalhar na editoria de Variedades da Folha da Tarde, o primo-pobre da Folha de São Paulo, hoje já extinto. E claro, como qualquer jovem, sobretudo novato em algum emprego, tentava acompanhar os colegas em tudo o que faziam para me sentir aceita e entrosada. E o repórteres daquela redação tinham o hábito de todo dia, naquele hiato entre o fechamento e a última revisão, descer em grupo até a padaria e tomar uma cervejinha. Não sei se os tempos eram mais românticos ou politicamente incorretos, o fato é que jornalistas costumavam beber mais – menos eu.
Homem tranquilo e jornalista experiente, nosso editor não se importava. Sabia que uma saída rápida como aquela não comprometia a qualidade do trabalho. Mal sabia ele que, no caso de uma repórter distraída e pouco acostumada a bebidas alcoólicas, poderia comprometer sim.
Cigarro entre os dedos, a cinza caindo no meio das teclas da primeira geração dos jurássicos computadores, tijolões quadrados da dimensão de microondas, eu aguardava ansiosamente por estes momentos de lazer com o pessoal. Nesse dia não foi diferente. Dei a tradicional escapada para aliviar a visão das pastilhas coloridas das paredes. Larguei o texto que deveria ser fechado naquele dia. Salvei e desci. Atravessei a Barão de Limeira e, como de costume, pedimos cerveja de garrafa e sanduíche de queijo com mortadela.
Na volta, antes de continuar a escrever, fui até a editoria de arte. Neste momento fatídico deve ter ocorrido o inexplicável em meu cérebro. Se distração ou efeito dos dois copos de cerveja, não sei. Pedi, então, ao diagramador uma ilustração para a matéria que produzia. Precisava ser o desenho de uma caneca ou um copo de cerveja, a espuma escorrendo, para dar água na boca do leitor e destacar meu texto sobre a festa da cerveja, programada para o fim de semana na casa de Portugal, conforme informava o release de divulgação.
Cervejas importadas trazidas de várias regiões de Portugal? A princípio, estranhei as informações inusitadas, mas não dei bola e prossegui. Engraçado Portugal ser celeiro de cerveja, não sabia da variedade da bebida existente neste País, pensei. E eles ainda exportavam, curioso! Até aquele dia, cerveja para mim era com os alemães.
Dia seguinte, jornal rodado, ainda nem tinha visto o resultado do trabalho, quando o telefone tocou na redação vazia. Atendi. Do outro lado, uma voz em tom extremamente irritado perguntava quem havia feito a reportagem da Casa de Portugal.
Que absurdo um repórter ser tão desatento e distraído! Vou reclamar com o editor, vociferava a senhora que ameaçava pedir a demissão do responsável por aquele erro grosseiro, além de outras ameaças. Fui me encolhendo, falando baixinho, olhos arregalados de medo de ser surpreendida.
Tentei acalmar a senhora, mas só piorava a situação. Sem saber se fora o efeito da cerveja no sujinho ou a distração, mas o fato é que a desligada repórter aqui trocara a palavra cerejapor cerveja. E esta letrinha entre o “erre” e o “e” faria toda a diferença. No mínimo, mudava o tema da festa de fruta para bebida. Sorte não haver ninguém na redação. Nenhuma testemunha flagrou o telefonema, ufa! Consegui esconder de todos as consequências desastrosas de uma cervejeira ocasional, saí ilesa do episódio e até hoje me divirto muito com o acontecido.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Re-forma gramatical da Lantejoula

Ângelo Madureira, Ana Catarina Vieira e companhia reapresentam a mais recente criação onde lantejoulas são definitivamente as protagonistas

Rafael Ventuna
Especial para Blog do Dudu

Para quem perdeu a estreia de “Mapa Movediço” na semana passada, a companhia de Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira reapresentam de hoje a domingo, no Teatro Cacilda Becker, uma curta temporada do espetáculo de dança contemporânea, que integra a programação das atividades comemorativas dos 10 anos da companhia. E para quem não acompanhou a trajetória da companhia ao longo desta década, fica a dica: lantejoulas dançam.
Quando no final da década de 1990 Ângelo e Ana Catarina se encontraram artisticamente, se propuseram a fundir o popular e o erudito; o nordestino e o sudestino; o feminino e o masculino; o côncavo e o convexo. É aí que entra uma nova linguagem, a linguagem da lantejoula.
O gramático Pasquale nos orienta que a linguagem está presente em todas as atividades comunicativas, sendo ela a capacidade de se comunicar por uma língua, que por sua vez é um sistema de signos convencionais. No caso, lantejoulas. Ângelo e Ana Catarina dialogam por meio de lantejoulas.
Começam por usar a forma mais popular “lantejoula” e abandonar “lentejoula”, como registram os dicionários. Usar “lente” não lhes parece necessário, porque a lantejoula para eles não é um instrumento-objeto; é sim um corpo irredutível, um radical, ao qual se acrescentam prefixos e sufixos. Com lantejoulas formam-se verbos, substantivos e adjetivos. Nomes e pronomes. Frases inteiras.
Diante disso, nos trabalhos anteriores da companhia há uma obsessiva sistematização do processo de criação, a exemplo de “O Nome Científico da Formiga” (2007) e “Baseado em Fatos Reais” (2010). Para chegar à coreo-grafia (escrita com movimentos), os intérpretes já se serviram de foto-grafias (escrita com luz) para propor uma sequência ordenada de imagens estáticas até chegar ao movimento. Ou seja, do fragmento ao todo. As lantejoulas operam no mesmo sistema: só se tornam um todo quando agrupadas, quando são penetradas por agulha e linha até formarem um bordado.
Percebe-se ainda na companhia um esforço em apresentar uma orto-grafia (escrita correta), talvez para justificar a já conquistada cali-grafia (escrita bela).
RE-FORMA
Em “Mapa Movediço”, a companhia mostrou-se ousada e corajosa. A começar pela honestidade de Juliana Augusta Vieira que propôs apenas uma luz geral no palco sem rotunda e coxias. Em cena, por mais paradoxal que seja, só se vê um processo de construção coreográfica desprovida de narrativa. Os semblantes dos bailarinos anulam a figura do intérprete e o figurino com calças de veludo deixam as lantejoulas livres para dançar. E como dançam as lantejoulas!
O trabalho ainda apresenta duas peculiares e importantes características. A primeira é a composição da trilha sonora que é feita em tempo real com microfones que captam o som das lantejoulas, passos, respiração. A segunda é oferecer ao público a oportunidade de ver dança para além do corpo humano, isto é, ver dança em um corpo-lantejoula.
O cenário também é construído a partir das formas e paisagens que surgem quando as lantejoulas dançam em sinergia com o movimento dos bailarinos, porém são as lantejoulas as protagonistas que dão forma (e re-forma) ao espetáculo e constituem a estrutura gramatical pela qual Ângelo Madureira, Ana Catarina Vieira e companhia articulam seu vocabulário.
MINIBIOGRAFIA
Rafael Ventuna é jornalista e crítico, com especialização em Economia e Gestão de Bens Culturais pela Fundação Getulio Vargas. É também pesquisador de Dança Contemporânea Brasileira.
 
foto Inês Correa

quarta-feira, 10 de outubro de 2012


(Para) Noia

Sinal vermelho, os carros freiam. Me meto entre um e outro na fila do meio do avenida. Chegou a hora.
- Passa a grana e o relógio! Tô com pressa, anda, te rasgo todo, faço um buraco fundo nessa tua careca ridícula! Merda, o cara acelerou, levou um baita susto, saiu cantando pneu e passou por cima de uma velhota manca. Ela atravessava fora da faixa, a vaca, deve ter merecido, aquele pescoço cheio de colares, anéis de ouro nos dedos. Deu pra ver o brilho. O estrago foi grande, sangue pra todo lado, começou a juntar gente. Tratei de correr, correr até ficar sem ar. Ufa, pronto.....O peito arfando, dez quarteirões depois escolho outra esquina, outro ponto estratégico.
Cara, preciso me dar bem... paciência é a melhor arma para mirar e dar o tiro certeiro no próximo otário com o vidro do carro aberto. Vai dançar o idiota! Quero ver o Zè Mané escapar. Tô ligadão..., esperto pra dar o bote. Me escondo atrás do ponto de ônibus, me espremendo pra ficar mais magro que sou, o estilete de 15 cm novinho em folha, preso entre a barriga e a calça. Dá pra sentir o gelado da lâmina de aço roçando os pelos da barriga, abaixo do umbigo. Esse bagulho que eu cheirei de manhã não bateu. Se liga, ninguém vai me ver, velho. Preto como a noite, vai ser mole.
Depois daquela zica, todo respingado de sangue, que nojo! Será que a vaca morreu...ponto de interrogação). Deve ser horrível sentir o tranco da lataria do carro bater no corpo...Uma geleia, monte de ketchup esparramado no asfalto. Opa, carro de vidro claro, mulher ao volante, vítima perfeita.
_ Vai logo, Madame, quero a grana e o celular  senão corto seu pescoço da garganta até o peito, vai!
Filha da puta, abriu a porra da porta na minha cara! A força do impacto me derrubou, caí de costa. A mulher soltou o cinto, desceu do carro, vestido preto curto, loiraça. Ainda deu pra ver os olhos verdes faiscantes de raiva, e as pernas gostosas, roliças, antes da vagaba enterrar o salto fino do sapato no canto da minha boca. Rasgou tudo, de novo o sangue  jorrando, aquele azedo descendo grosso pela garganta. Piranha, essa eu pegava.
(exercitando o narrador vil, Oficina de Escrita Criativa, com Nanete Neves)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Irene, meu segundo furacão


Uma semana depois do forte tremor de terra sentido em Nova York, o furacão Irene estava para chegar. Nossa primeira vez na cidade reservava mais surpresas do que gostaríamos. Ser testemunhas e protagonistas do fato histórico causava expectativa e medo. Pelas ruas molhadas, guarda-chuvas comprados em camelô da esquina, eu, Sandra, Maria, Lydia e Anny resolvemos dar uma volta, comprar algo para comer mais tarde, quando estaríamos presas no quarto de hotel.

Enquanto caminhava pela Quinta Avenida lembrei do bilhete deixado naquela manha em cima da escrivaninha do hotel. Dicas de como agir, espécie de manual de sobrevivência. Era para ficarmos recolhidos, evitar o uso do elevador e, em caso de medo, poderíamos nos agrupar na recepção. Lanterninhas de led para todos os hóspedes, para uso nas escadas. Ordem para estocar água, alimentos e ....ufa, eles prometiam fazer de tudo para nossa segurança.
 
O vento aumentava de velocidade na mesma medida em que a temperatura do ar diminuía e o tempo piorava. Escurecia rapidamente. As entradas de acesso às estações de Metrô fecharam pela primeira vez na vida de Nova York. Ônibus também não circulavam. O Central Park exiba faixas com os dizeres closed. Sensação estranha, boca seca, mãos frias.

"Vão para casa agora e fiquem por lá tranqüilos até tudo passar", orientava o segurança da loja da Apple, normalmente aberta 24 horas, mas que fecharia as portas em breve. Respiração alterada, fotografo imensas nuvens negras acima de minha cabeça. Continuamos andamos pelas ruas assustadoramente vazias.
 
Na farmácia, fila para pagar. Xampu, escova e pasta de dente, o necessário para dormirmos, eu e Sandra, no hotel das nossas amigas. Difícil pegar táxi. Quando conseguimos, taxímetro desligado, o motorista cobrou preço fechado. Sempre alguém leva vantagem em circunstâncias assim, pensei, impressionada com o organização e rapidez dos americanos, pois a lista de preços das corridas ja estava impressa e plastificada, pendurada nas costas do banco do carona.

Do quarto do hotel, gastei bom tempo na janela observando a falta de movimento na rua. Sem o barulho constante das sirenes, só a fumaça branca saída dos bueiros continuava lá. Na TV, o assunto era só um: Irene. O prefeito ordenava evacuações em áreas de risco. Reportagens mostravam a população se preparando para enfrentar o pior. E nós, no no 15.andar de um edifício envidraçado, vulneráveis à aventura de dividir Manhattan com um furacão.
 
Entre ansiosas e receosas por estar ali e acompanhar situação sem precedentes nas nossas vidas, atendemos telefonemas da família em busca de notícias. Reunidas no quarto da Maria e da Lydia, relaxamos e bebemos a noite inteira várias garrafas de um vinho delicioso – o Copolla, comprado no lugar da água -, enquanto acompanhávamos pela TV a transformação do furacão em uma mansinha tempestade tropical. Confesso, fiquei com uma pontinha de decepção. Talvez mais aventura... .

Em tempo: este não foi o primeiro furacão da minha vida. O nome dele era George, cujos estragos vimos em Key West, na Flórida, mas essa história fica para outra crônica.

(Maria Fernanda Teixeira)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O dia em que desapareci

Situação inusitada aconteceu comigo em 2011. Viajei com um amigo para Punta del Leste, no final do ano, sem me preocupar com a documentação. Carteira de identidade vencida, embarquei com o passaporte. Na volta, preocupei-me em ir ao Poupatempo da Praça da Sé tirar o novo RG, o velho tinha mais de 10 anos. Fiz foto, juntei a papelada exigida e, no dia marcado, fui buscá-lo. Como havia mudado de casa, iria também ao Detran, para trocar o endereço do documento do carro.

- Deu problema, decretou a atendente, sem esboçar expressão alguma, cara de quem detém o comando da situação.

- Vai ver que foi com a documentação, continuou a moça. Depois de pegar senha e esperar até a semana seguinte, voltei ao Poupatempo e um rapaz repetiu a informação:

- Deu problema, consta que a senhora é desaparecida, precisa ir no DHPP.

Polícia Federal, pensei. Departamento de Homicídios e Proteçāo à Pessoa. Gelei. Respiração curta, decidi passar antes em casa para pegar um documento original, na certa eles pediriam. Para quem é da minha geração, viveu de perto os tempos difíceis da Ditadura, os amigos torturados, o medo no ar, ir à Polícia não era exatamente um programa. Tinha um gosto amargo.

No caminho, um mundo passou pela minha cabeça. Lembrei dos cartazes na padaria perto de casa, anos 70, ao lado de pôsteres da seleção de futebol campeã do mundo, cartazes com fotos dos chamados subversivos, o jornalista Daniel Aarão Reis, meu primo, entre eles, todos seqüestradores do embaixador alemão. Eu, mãos dadas com minha mãe, evitava até olhar para os procurados.
Quando cheguei em casa, elevador quebrado, subi 9 andares a pé. Da mesma forma, encarei as escadas para chegar à rua. Tomei um ônibus, a respiração ainda ofegante, desci no bairro da Luz, onde fica a Polícia Federal. As mãos frias, boca seca, um arrepio de pânico ao imaginar que teria de encarar meus fantasmas e entrar no prédio.

- Coragem, vamos!, falei para mim mesma, tentando convencer minhas pernas a se movimentarem. Entrei no elevador, parei no andar indicado. Clima sinistro, deserto. Depois de atravessar o imenso hall vazio, reparei numa moça lixando as unhas. No trajeto até a sala onde teria de ir, cruzei com pessoas desocupadas, xícaras de café nas mãos, jogando conversa fora. Continuei a andar até que me deparei com a placa Pessoas Desaparecidas no alto da porta de uma sala. No fundo, um rapaz de cabelo rastafari acenou com um gesto para que eu aguardasse. Era como se eu precisasse esperar a minha vez na fila.

Quando, enfim, ele me chamou, segundos pareciam uma eternidade enquanto digitava, os olhos fixos na tela do velho e empoeirado computador, e voltava, sem emitir som algum, a me encarar. A cena, para meu desespero, repetiu-se algumas vezes.

- O que você estava fazendo em 1998?, disparou, rápido como uma metralhadora.
Antes mesmo que conseguisse responder, a respiração presa depois do susto, ele engatou, ar de desaprovação:

- Porque consta queixa de desaparecimento seu. A sra viajou?

Atônita pelo inusitado da situação, puxei pela memória, viajo bastante, mas deu branco na hora. Nervosa, não conseguia lembrar nem onde estivera ontem.

- Vai ver estava me escondendo de algum namorado, brinquei, tentando relaxar.
O homem voltou-se para a tela do computador e continuou a digitar, olhar para mim, digitar, aquele som irritante ecoando em meus ouvidos.
- Descobri, disse, o volume da voz levemente alterado. Tem um cara com o mesmo RG da senhora, mas sem o dígito.
Respirei aliviada enquanto o homem explicava que uma confusão deveria ter ocorrido no sistema para que fossem registrados dois números iguais e constasse meu desaparecimento.

- Já resolvi o problema, disparou, para logo em seguida, pensativo, emendar uma pergunta:

- Em 2005 a senhora perdeu o documento, confere?
- É fui furtada há alguns anos.
- Pronto, está tudo bem. Pode voltar ao Poupatempo que já tirei do sistema a informação incorreta. Seus namorados agora vão poder achar a senhora, disse, um sorriso irônico.

As unhas roídas, senti uma gota de sangue brotar na cutícula machucada. Sem dar atenção à dor no dedo, deixei o prédio imediatamente. Peguei o Metrô na Luz, saí na Sé, de volta ao Poupatempo, de onde fui embora com o novo RG.
(Maria Fernanda Teixeira)